Gerana Damulakis
Agora é um jardim
de rosa e jasmim.
Outrora foi a pedra
sem valor a guerra medra.
Outrora foi a tramóia,
a conquista, a vitória em Tróia.
O vento é o mesmo grego
passa como apagador
em quadro-negro.
Mas se ele dobrar a esquina
e voltar com o ontem,
quem sabe traga os deuses
e eles me contem.
Do livro Guardador de Mitos.
domingo, 23 de março de 2008
quinta-feira, 13 de março de 2008
NO TEMPO DOS FRUTOS
Gláucia Lemos
Março é fim de verão e começo de outono. Justamente no dia do equinócio ele chegou.
A janela abria-se para a varanda. Além da varanda havia o muro. No muro, o portão fechado. Além do portão, o passeio. Da janela, eu o vi chegar. No meio-fio, parou.
Muitas fronteiras havia entre os dois, a janela, a varanda, o muro, o trinco do portão. Não sei se ele as notou, mas eu, sim, não poderia ignorá-las. As fronteiras eram minhas.
Escancarei a janela e não fiz mais um gesto, ao perceber que chegava. Não sei o motivo, mas adivinhei que era ele.
No último dia do verão que é também o início do outono, estou muito complexa. Ainda é verão com todo brilho incandescente do sol e todo calor, vapores e suores, e, no entanto, já é outono, com todos os meus frutos carecendo cuidados. Ainda estou tomada dos ardores e quero, mais que tudo, vivê-los. Pois não é no verão que as mulheres se tornam Damas de Paus? Ainda com a floresta em chamas, e já conhecendo o apelo dos frutos. Intermediária, ora transportada, ora ocupada em abafar fogueiras. Meio-rainha, meio-plebéia, metade direitos, metade deveres, reivindico em mudez o atendimento a meus incêndios, mas devo doar-me inteira a meus frutos.
O vivenciar da repressão no verão, encaminhou-me à necessária decisão de despir a fantasia. Ah! Meus demônios convenceram-me de que toda rainha veste fantasia. Os resquícios, porém, são seqüelas, por isso não conseguia tornar-me plebéia e não sabia por onde começar a rasgá-la Isso eles não me ensinaram. Assim, me guardava e me escondia, semi-despida ante o apelo da estação que me instigava. Conservo o que remanesce da fantasia e me cubro em pudores. Eis porque no derradeiro dia do verão ainda não conseguia desligar-me para inaugurar o outono tranqüila e amadurecida, como necessário para a guarda dos frutos, bem investida no encargo. Só que não estava preparada.
Esse era o conflito quando ele chegou. Abri inteiramente a janela. Vi-o estacionar no meio-fio da calçada. Não deu um passo aquém do meio-fio.
Senhor, é o primeiro equinócio, deverei perguntar-lhe o que deseja? Que quer de mim, agora? Porque hoje? E porque não apertou a campainha para que o olho-mágico me revelasse a sua figura tardia? Ah, senhor, por quê? Eu nunca lhe abriria a janela como agora. Hoje é o dia de começar a encapotar os meus frutos. Começa o outono, não sabia? Não posso sequer vê-lo. Porque veio, senhor, após tanto tempo de espera? Porque se fazer concreto após tanto tempo de sonho? Porquê? Vê-lo exatamente agora, é como o resgate da esperança, aquela mesma esperança vesga que sempre se enganou ao vir a meu encontro. No entanto, senhor, isso hoje me faz odiá-lo, sem que lhe caiba culpa. Mas, por acaso ignora a verdade dos meus frutos? Enlouqueço porque veio, senhor, e enlouqueço por eles que não sei deixá-los. Careço de lucidez como nunca, em tamanha divisão. Madrasta lucidez que por certo me avassalará.
No entanto, nada lhe pergunto, nada lhe falo. Vejo sua figura elegante, seu porte esbelto e os traços finos no rosto contido. Tem algo de nobre, justo no perfil dos nobres despidos de arrogância. As roupas empoeiradas de quem teria viajado longamente – pelo tempo? pela história? pelo sonho? – pareciam impróprias a seu porte altivo e seu rosto delgado e seu olhar aberto como um lago. Algo de nuvem esvoaçava em sua fronte. Anjo, ou cavalheiro de miragem.
Acho que o conheço sem jamais tê-lo visto . Descanso meus olhos nos seus sem completar o gesto de debruçar-me à janela. Vejo-o interromper-se também, sem concluir o passo que subiria o passeio. É um nobre, não se permite os ímpetos do populacho. Seu olhar parece calmo, mas sinto que não está pleno de paz. Talvez seja mais triste que tranqüilo, e adivinho que traz a sua solidão para juntá-la à minha.
É o meu cavalheiro da cerração que me buscou decerto nas areias atlânticas das praias longínquas, aonde jamais fui, e que andou pelos ângulos do mundo à minha procura, e que enfim me encontra em um final de estação, num limiar das febres. Sei que é ele. Veio no rastro daquela que se atrasou para o encontro marcado pro verão, em algum tempo que não sei precisar. Chegava fatigado, marcado de estradas, no pó dos cabelos trazendo fios das estrelas. Cumpria a história e chegava porque tinha que vir salvar sua dama prometida. Onde o cavalo? Onde o veleiro? Que importa...? ele veio.
Olhei-o transportada pela perplexidade de quem não acreditava que ainda viesse. Olhei-o em transporte miraculoso porque o reconhecia. E assim ele me olhou ansioso porque me encontrava. Não trazia séquito de escravos nem arcas de tesouros. Não o seguiam os dezesseis peões guardas de rei de xadrez, nem mirra, nem ouro, nem incenso do oriente. Suas mãos abrigavam não mais que uma ave pequenina que ergueu ante os meus olhos e deixou que voasse.
Eu a vi traçar um círculo perfeito no espaço, livre, e depois, dirigir-se à minha janela e repousar suave, nas conchas das minhas mãos. Começou a cantar. E a solidão da minha sala vestiu-se de alegria.
Por um momento, caminhei até a porta, abri-a, para fazer que penetrasse no mais perto de mim. Afinal, acreditava não ser mais rainha. Meus nobres e minhas aias tinham me abandonado, desde que lhes confessei que desistira de ser Rainha de Copas, e que o Rei de Ouros e de granito, eu o deixara ficar na arrogância do seu trono de pedra. Todos me condenavam porque destravara as cordas vocais para gemer as dores dos calos dos meus pés. Rainhas não gemem nunca. Não lhes é próprio. Eu já podia, pois, abrir a minha casa a meu cavalheiro que trouxera o canto de uma ave para apagar a minha solidão.
Quando descerrei a porta, ele subiu ao passeio e avançou até o portão do muro. Desci a soleira e pisei o chão da varanda para ir a seu encontro. Ele abriu o portão e começou a entrar para vir ter comigo. Por um segundo, os nossos olhos se conheceram e ele sorriu em sol que se derramou por toda a rua e incomodou os meus olhos. Sabia ser aquele o momento da minha salvação. Era aquele o momento, não outro, eu o sabia. Novamente parei, envolvida pelo canto da ave, cada vez mais penetrante e irresistível. E ele então, parou também, esperando o meu gesto. O meu gesto... que eu não fiz.
Não entendo por que, lembrei-me de que já chegara outono e eu tinha que abrigar os meus frutos desde o dia do equinócio. Era outono e eu tinha frutos a cuidar. Quando ele me estendeu a mão em convite, fui ficando indecisa, f u i f i c a n d o i n d e c i s a, e me voltei depressa, e retornei a correr para dentro da casa.
Levei as mãos à cabeça em desespero e rasguei minhas vestes e corri a abrigar com os trapos os meus sempre verdes frutos.
Então, só então, chorei. Eu que antes jamais me permitira o privilégio de chorar. Precisei enfim chorar.
Quando ergui a cabeça das mãos encharcadas, feridas da acidez de um pranto corrosivo, a ave tinha emudecido, e percebi que também ele tinha ido embora. Era sutil bastante para entender o impossível.
Pé ante pé, como em vias de um crime, pisando leve no alagado do meu piso, espiei pela janela. Lá fora, a rua era deserta. E nunca mais passou ninguém. Nem gente, nem ave, nem carro, nem barco, nem cavalo, nem inseto. Nem um riso, nem um canto, nem um choro.
Gláucia Lemos é ficcionista premiada e tem mais de 20 títulos. Este conto dá título ao volume de inéditos.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
VISÃO SENSUAL

Gerana Damulakis
Ele levanta halteres
displicentemente
como um vencedor de olimpíadas,
malhando o corpo musculoso e suado,
em plena forma,
tão sensualmente
que embriaga os sentidos
de quem olha - exercício mental
dos meus neurônios -
ativação dos ferormônios -
a imaginar um toque
naqueles feixes tensionados,
enquanto ele segue
- ignorante dos meus desejos.
Poema do livro Guardador de Mitos (Edição do autor, 1993).
Foto de Ivan Monticelli, retirado do Flickr.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
CERTAS MÚSICAS

Gláucia Lemos
Desperto para a manhã quente de um verão sufocante. O pensamento é o mesmo de alguns dias, ainda não consegui me livrar dele, e não creio que o queira perder . O mesmo pensamento vem tomando todo o meu tempo e espaço, e não entendo por que finjo querer dispensá-lo, se tenho consciência de que ele me dá prazer. Está sendo como certas músicas que às vezes teimam em freqüentar nossa mente sem qualquer motivo que não o registro de alguma coisa. Desde o dia em que cheguei da última viagem comecei a cantar: Deixe eu dizer que te amo, deixe eu gostar de você. Amor I love you, amor I love you. Mal acordo e aqui está como um pano de fundo bem dentro em mim: Amor I Love you, amor I love you. A melodia se repete e estou a cantá-la mesmo em silêncio.
Por entre as faixas frágeis das persianas, listras de luz se projetam e desenham um simétrico painel na parede clara. Brinco de este-sim-este-não, com o olhar saltitante entre elas, procurando ocupar a mente com outra coisa. Lá fora o amolador de tesouras sopra um realejo em escala cromática agudíssima. Então, imediatamente penso em André que se incomoda com o som dessa escala. Já perguntei: Por que não gosta? – Não sei, não gosto. Foi bastante. Aquela gaita é ele. É curioso como certos sons estão ligados a certas pessoas e a certos momentos. O amolador de tesouras e meu neto André. Amor I love you e uma imagem fixa no meu pensamento, como se fosse possível reter uma figura as time goes by. E a repetição desse compasso está agora outra vez interrompendo o meu desejo de continuar esta crônica, que me acordou logo pela manhã para a luz e os suores do verão, e era desse verão que eu queria falar. Um pensamento, uma imagem insistente e um pedaço de música que se casa perfeitamente com a sugestão da imagem.
Falo As time goes by e a expressão remete a Casablanca, o filme. No último sábado o vi pela terceira vez. Agora em DVD. Quando foi lançado, eu estava saindo da puberdade, idade de sonhos de amores eternos e de inabalável fé na eternidade do amor. As time goes by cantava na boca de todos os adolescentes como um hino e uma profissão de fé. Por tudo e por nada repetia-se: “Toque outra vez, Sam”. Erradamente, pois a frase no filme é “toque uma vez, Sam”. Mas era constante.
Eu estava nos meus primeiros anos de ginásio, e no meu primeiro encantamento sentimental. E acreditava que amaria por toda a eternidade aquele menino franzino, branquinho, de cabelos negros sempre caindo um pouco sobre a testa, numa madeixa luzidia e teimosa. Enfim, a eternidade está dentro de nós. Era meu vizinho, tinha olhos grandes e, na boca pequena, um sorriso bonito. Onde abri as mãos e o perdi? Se é que o perdi. Em que trecho da vida o deixei, que ele continuou a vir comigo suave como um vôo de pássaro que me acompanhasse em todos os lugares, em todas as companhias que tive, em todas as perdas e todos os êxitos, e ainda o tenho, mesmo agora quando sei que está morando em algum ponto onde moram todos os mistérios que estão encravados na eternidade, ainda o tenho as time goes by. Amor I love you, amor I love you.
Gláucia Lemos ganhou o prêmio UBE - SP 2007 com o romance BICHOS DE CONCHAS.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
O CORPO
Flamarion Silva
Descontinuariam a festa por causa da morte de Romildo? Tomara vivalma não se lhe dê conta. Achado, decerto não haverá festividade. É costume do povo, que é respeitoso, não demonstrar alegria quando parte um irmão. É uma cumplicidade de dor, como quando o amigo se vai, deixando saudade colada à lembrança. Quem não se lembra de Seu Aniceto de dona Carmélia? Expirou no Jardim das Flores, mas lá, sem campo-santo, veio às carreiras ser enterrado em Barcelos. No dia do sepultamento, uma bebedeira no bar de Preto. A radiola alta. Mas, pronto, bastou o povo avistar o cortejo lá em cima, no Mirante, ligeiro o som silenciou. Quem estava de chapéu, sacou-o fora. Todos persignaram-se e fizeram o sinal da cruz em reverência. Um cujo abriu caminho para o dito:
“Vá com Deus, meu irmão.”
E logo todos o seguiram:
“Vá com Deus.”
Indo.
O sino principiou a bater na igreja de Nossa Senhora das Candeias. Anunciava a morte e convocava o povo para o cortejo. Quem ouvisse a trágica canção, logo fazia a leitura:
“Vixe, meu Deus, morreu um’alma, e não miúda, de anjo; pelo ritmado do badalo... o alteado... gente grande.”
Porém, o povo queria a dança, a cachaça, a esfregação, a safadeza, a putaria. Trezentos e sessenta e cinco dias na folhinha subtraídos, um a um, do levantar ao cair do sol, os dias compridos. Tão aguardada festa! Pois bem. Romildo que ficasse lá. Quem mandou subir em árvore? Pegar passarinho a mão? Eis o que se deu: despencou lá de cima. E cá embaixo, nas estacas, o corpo cravado. Alguém, sem coração, dirá depois:
“Quem lhe tem pena? Estragar a festa... Vá ser azarado assim no inferno!”
Olhe o diabo: dona Branca, mulher de Seu Miguel de dona Rola, havia-o de ver. Um mal estar a levou aos matos, arrancar folhinhas de chá. Bateu os olhos no corpo de Romildo. Diria, não diria, apodreça até amanhã! Nem isso a peste pensou. Deu a gritar. Gritos de morte. Diferenciados das batidas no anúncio de alguém já morto. Aí o momento é desigual. Diferente do sino que já bate consciencioso da morte. O grito de dona Branca declarava o exato momento do antecipado confronto. Pois quem morre, mata muitas vezes, até aquietar-se sob o terreno da memória, o defunto. É uma cadeia que se sucede. Primeiro o morto original, e no justo instante dona Branca de Seu Miguel de dona Rola, mais logo todo o mundo a morrer mais um bocadinho. Todos com o seu quinhão da Dona Fatídica. Até o morto, o de verdade, ser enterrado de vez. E, ainda assim, mesmo depois de amanhã e mais, mesmo sob o chão lacrado, às vezes, na lembrança vem, como alva garça, avoada a alma matar um pouco quem vive. E como apossa-se-lhe suave no pouso! Mas cravam-se-lhe as unhas na alma, irmão. A gente chora que doem os ossos. É costume da gente se lembrar, gostar de se matar, avivando o sofrer.
Por esse então, a gente embriaga-se toda. Um motivo tem: se há dor, é preciso esquecer. E, na bebedeira, os motivos se confundem, os objetivos tornam-se desvirtuados, os braços se agarram a tudo, pois a tontice é muita, e as pernas, tantas embaralhadas, assim vão-se a valsar essa dança doida de bêbado.
A gente concorda em fechar os olhos diante do morto. Gente, pois não somente dona Branca de Seu Miguel de dona Rola o viu, assim como Zeca da Biriba, Manuel do Brejo, o rapaz que se enamora de Dadinha, e quem mais, só Deus sabe! Que mundo, este!... Bem, o fato é que, resolvido, sem encontro marcado, ficou tudo conforme: ninguém viu o corpo de Romildo enfiado nas estacas. Foi tudo assim como se concluíssem: os mortos, aos mortos; a gente vai à festa.
Flamarion Silva é autor de O rato do capitão da Coleção Selo Letras da Bahia (EGBA, 2006).
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
A VIDA BEM OU MAL PENSADA

Gláucia Lemos
Eu vi a mulher preparando outra pessoa
o tempo parou para olhar para aquela barriga.
Caetano Velloso
In Força estranha
Percebo a vida caminhando lá fora. No movimento matinal dos carros deixando o prédio; nas crianças borbulhantes de energia chegando à escola em frente; no menino do jornal correndo a cada vez que um motorista acena; nos pombos que toda manhã descem, não sei de onde, e se espalham bicando as pedras portuguesas da pracinha, ou se põem a virgular a fiação dos postes. A praça acorda na mulher das toalhas com seu vaso de paçocas de amendoim; no menino dos cds-piratas; no homem dos panos de chão caminhando entre os carros a sacudi-los como bandeiras da paz, branquíssimos e porosos, nas mãos que, incansáveis, oferecem. A vida em cada um pulsa no roteiro que lhe foi apresentado pelas circunstâncias. Cada ser, uma vida.
Dizem que as vidas são traçadas, e cada qual seguirá aquele traço inevitavelmente. Fatalismo em que nem creio nem contesto. Fico no “pode ser”.
Ciganos acreditam que os traços da vida estão dispostos nas palmas das mãos. Abro as minhas mãos: linhas longas, curtas, cruzes, asteriscos, estrelas, um bordado apurado mostrando uma grade miúda. Isso é minha vida cifrada? Por algum motivo a natureza desenha, indivíduo a indivíduo, esses rabiscos em cada mão a seu jeito. Que trabalho! A cada um, seus desenhos. Nem gêmeos têm linhas iguais, é como impressão digital, nem gêmeos idênticos. Ciganos vêem a longevidade, o sofrimento, a fortuna, os amores, a morte, os filhos, as viagens. Quem ensinou aos ciganos? A própria natureza os dotou? E por que a uma raça eleita? Eles que erram em caminhos sem início e sem fim, sem território e sem governo senão o do próprio clã, e carregam a força da sua cultura sobrevivente desde o princípio dos tempos, e a carga das perseguições até o fim dos tempos e do nada, como povo que luta rijo e em silêncio, para continuar sendo sempre, e honrando o que sempre foi: somente ciganos, zíngaros, jitanos, rons e calões - de onde herdaram essa sabedoria? Uma cigana me disse que caminhar é costume, e que a vida nas palmas das mãos, foi o Senhor quem botou.
Cada crença tem sua lenda para explicar a vida, sua mitologia. São lendas que encantam, até pela ingenuidade. Para começar pela minha religião, em cujo Deus eu creio acima de tudo: um deus que deu vida a tudo durante seis dias, e no sétimo dia descansou; deuses que dão vida e presidem aos animais e aos homens; deusas cujos seios deram vida aos rios; deuses que se apaixonaram e se acasalaram com mortais, e deram vida a gigantes e heróis. Seus crentes apostam nessas suas lendas, e em outras.
Lá embaixo a vida está pulsando na inexplicabilidade azul e espumosa daquele mar que me comove e sereniza, tanto quanto pulsa ininterrupto na barriga imensa daquela mulher simplória que vai passando, quase arrastando os passos cuidadosos, porque está prestes a trazer à luz a vida que seu sangue gerou na divisão da sua própria vida, no mais belo e intrigante de todos os mistérios.
É! Como eu disse: A vida está caminhando lá fora. E o que é que eu estou fazendo aqui sentada, junto a este telefone que não toca?
Gláucia Lemos é autora de O riso da raposa entre outros títulos.
A foto é de Iroma Baby retirada do Flickr.
POEMAS DO MÊS

COTIDIANO
Gláucia Lemos
Gláucia Lemos
Pendura a roupa no varal
que seca.
Pendura a dor na corda do perdão.
Pendura o sonho que te faz poeta
que sonho é fogo que se ateia em vão.
Pendura o quadro na parede certa.
Pendura o amor no arame do passado.
E pendura este desejo que te seca,
que ele te sabe ao pão
mais amargado.
Pendura a chave numa argola aberta
Pendura a luta ao prego do cansaço.
E pendura essa fé que te alicerça,
que nada vale que lhe vás
ao encalço.
Pendura a toalha no cabide, reta.
Pendura o tempo em torno do vinho
e pendura o beijo em boca predileta,
que tudo acaba,
e acabarás sozinho.
JARDIM
Gláucia Lemos
As órbitas róseas das begônias fechadas
viajam pelos olhos dos lagartos
e os braços histéricos
das acácias
choram, todo o verão,
suas lágrimas de ouro.
Eróticos antúrios,
fálicos, eretos,
desafiam o pudor
da pudica mulher
que espreita da janela.
Gláucia Lemos é ficcionista bastante premiada, mas é poeta também!
A foto é de kkdraga retirada do Flickr.
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