segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

UMA ORQUÍDEA NA CHUVA





Gláucia Lemos


Uma velha amiga, de passagem pela cidade, fez-me uma visita. Na despedida, apanhou do carro, onde a deixara ao chegar, um presente especial. Uma bela orquídea branca de haste delgada, elegante, realmente rara. Demorei-me com ela nas mãos, tentando protegê-la dos chuviscos que começavam a cair em grossos pingos, até que a chuva desabou e a visita apressou-se em partir.
Tínhamos acabado de falar em você, por isso foi inevitável a associação entre você e o presente que recebi. Ambos valiosos e raríssimos. É verdade que falamos em você sem propósito. Como se fala de alguém que se conheceu há muito tempo, a quem se esteve ligado por um vínculo antigo. Desses liames mornos das amizades inconseqüentes. Assim ela me falou de você. Isto é, eu perguntei notícias. Assim, à toa, só porque ela mora na sua cidade e é uma amiga comum. Disse-me que o tempo lhe deixou suas marcas. É natural que nessas décadas de ausência você tenha ficado muito diferente. Não imagino como esteja agora. Só consigo vê-lo revendo-o no registro da memória. Eu lhe mandei um abraço. Um abraço, pobre amigo, pode ser um cumprimento insignificante, porque abraço é a maneira mais comum de se externar estima. Extensa gama da afetividade, passando pela afeição, vai até ao incendiário abraço da paixão. É muito longo o elenco de sentimentos que passam pelo abraço. Vencidas dezenas de anos de afastamento, um abraço pode ter também um calor diferente. O calor do ainda lembrado, ou do nunca esquecido. Pode ser uma página de álbum de recordações.
Muita coisa é macerada nos silêncios das distâncias e, quando acordada desses silêncios, uma pergunta descerra a urna escondida sob o pó dos tempos. A verdade antiga ainda aflora e ainda se percebe que há vida no que fora vida há tempos idos. Ainda pulsa em juventude e graça o que o tempo haveria de ter tornado envelhecido e triste. Insisto em conservar a memória do seu rosto alegre e jovial, do brilho inflamado na vibração dos seus olhos que nunca estavam em gris. É assim que ainda quero recordá-lo, como o via naquela inútil tecedura de projetos. Braçadas de náufragos sem porto à vista. Isso nós já o sabíamos. Não tínhamos cais nem porto de chegada. Nadávamos para o nada. Mas nadávamos porque era inevitável. Com a nossa inútil alegria. Recuso-me a imaginá-lo alquebrado e decadente.
Disse-me que você não foi feliz. Pergunte-me se fui, pobre amigo, pergunte-me se fui. Ninguém conhece o que seria falar de um para o outro, nenhum de nós o confidenciaria a quem quer que fosse, por isso só mesmo em um falar sem propósito chegávamos a saber de nós. Não que nos envergonhássemos, por que assim haveria de ser? Sim, há os outros, os puros, os retos, os incorruptíveis, os que supõem acreditar que nunca escorregariam do traço que se propuseram obedecer riscado no chão, esses nos apontariam o dedo da acusação. Até que em uma das traiçoeiras esquinas da vida se reconhecessem semelhantes a nós. Eu nunca me sentiria culpada, nem você. Porque nos sabemos como ninguém. Só nós nos sabemos.
Lembra-se do que lhe falei naquela primeira carta após o meu regresso? Primeira e única, não me recordo de lhe ter escrito outras vezes, olhe lá se eu poderia ... Naquela carta lhe disse: Não me sinto culpada. Teremos culpa, eu ou você, de termos nascido para um mundo hipócrita? Os sentimentos direcionam-se espontaneamente sem que as nossas vontades os dirijam. Se voluntários, seríamos culpados? De que culpa nos podem acusar? Sejamos justos: nos culpariam por sermos um homem e uma mulher. É esse o nosso crime.
No entanto, há outras coisas no plano de fundo, há as convenções, há os compromissos. Somos fios de um novelo que começou a se desenrolar antes de nós e continuará a se desenrolar depois de nós. Não somos a ponta do novelo, não o iniciamos, por isso carregamos os nós que foram atados antes do nosso advento, e nunca desenrolaremos os que vierem depois. E entre os nós pregressos, há aquele que é maior que uma chaga na sua consciência. Na minha, menos, é só mais uma convenção, na tábua da lei da hipocrisia. Mas na sua, pobre amigo... Lembra-se? Eu lhe disse isso. Mandei-lhe aquela carta por Elisa, e você, cheio de escrúpulos por mim, pediu que ela mesma a trouxesse de volta e a destruísse, porque nela eu lhe pedia que a queimasse por cuidados com você. Como seria tão imenso o meu crime se ela caísse em mãos impróprias. Você sabia como eu seria crucificada. Elisa, a boa Elisa, trouxe-a de volta e me entregou com o seu recado: a frase afirmativa que me fez sorrir e cantar e dançar na frente dela e depois por muitos dias e noites, repeti a mesma frase para mim mesma. Eu lhe pedira qualquer frase afirmativa, se eu ainda fosse a mesma no seu sentimento. Ou negativa, se já me estivesse esquecendo. Elisa me disse, ignorando o sentido: mandou lhe dizer que está bem e que virá aqui qualquer dia. Eu sabia que você não viria, como poderia? Mas você não sabe que naquela tarde me fez renascer e, no tédio com que eu convivia, abriu um intervalo, iluminou uma sala e nela pôs um solo de sax-tenor que ecoou por muito tempo.
Sabe, pobre amigo, agora está chovendo muito. Todo julho chove muito e é nessas tardes que aumenta de intensidade um desejo de retorno, nem sei bem se é retorno, mas em todo julho, essas águas e ventanias me fazem padecer dores e tristezas. Assim, com certeza porque ontem você esteve tão presente, a chuva desta tarde é ainda mais doída. Traz-me um toque daquela saudade, daquela mesma. Era tanta saudade, era tanta, que uma dor física se impunha no espaço de todo o meu corpo, como se sentir a sua ausência fosse oprimindo o meu peito e obstruindo as minhas narinas e sufocando a garganta. E, não conseguindo respirar, o coração acelerava e uma agonia entrava no meu cérebro desorganizando o meu entendimento. Nunca senti tanta saudade quanto aquelas que sentia de você. Nunca. Nem antes, nem depois. Depois, nós nos vimos outras vezes naquelas mesmas circunstâncias. Teríamos outras? Mas nós sabíamos que ainda era tanto o que nos guiava, que algumas vezes quase nos traímos. A verdade estava em nossas faces, em nossos olhos estava a verdade tão simples, tão nua, que ainda hoje eu me pergunto por que somos condenados a certas renúncias. Por que nos rasgamos de nós mesmos e seguimos chutando nossas vísceras inúteis. Ainda hoje eu me pergunto.
Assim nos afastamos sem nos separarmos. Eu sei que não é preciso estar perto para se estar junto. Assim foi conosco, pobre amigo.
Ontem, tantas décadas depois, aquela amiga, assim, sem propósito, inocentemente, falou tanto de você. Notícias recentes e tristes de uma história antiga e inacabada, sem ter noção do quanto abria de nós. Em seguida às palavras, aquela orquídea ao chegar às minhas mãos tinha que ser associada a você. Rara, elegante, única talvez. Parecida com você. Mas tinha que começar a chover quando ela entrou no carro, e rapidamente engrossar o aguaceiro assim que ela partia, e choveu tão copiosamente que a ventania arrebatou a haste da flor, antes que eu deixasse a calçada, e ela se foi aos emboléus da chuva e do vento, e eu a perdi na enxurrada da sarjeta.
Como nos perdemos nos temporais que precisamos vencer nos nossos necessários silêncios.
Agora, tantas décadas passadas, retomo o mesmo tempo como flashes tão nítidos, e me convenço de que, ainda assim, ainda quando a renúncia se impõe, vale mais a pena permanecer amando, que tentar esquecer. Ainda quando o vendaval de uma chuva de julho, ou das outras muitas chuvas da existência, arrebata e leva a nossa orquídea para o nunca mais.





Gláucia Lemos é ficcionista com mais de duas dezenas de títulos e vários prêmios. Com O riso da raposa (Bibliex, 1988) recebeu o prêmio da Academia de Letras da Bahia. A foto é de Daniboy, retirada do Flickr.

O LIVRO DE UM HOMEM SÓ



Goulart Gomes



Georges Perec, o premiado escritor francês falecido prematuramente, aos 46 anos de idade, em 1982, escreveu uma das obras mais densas e instigantes da literatura universal: Um homem que dorme (Nova Fronteira, 1988). Obra esgotada, encontrada apenas em sebos, narra a história de um único personagem, de nome ignorado, um jovem de 25 anos, prostrado num total estado de ataraxia. O livro utiliza a voz narrativa na segunda pessoa – você – o que proporciona uma ainda maior simbiose entre o leitor e o personagem. Contudo, não é um livro para ser lido por quem é propenso à depressão.

Ao longo das horas, dos dias, das semanas, das estações, você se desprende de tudo, desliga-se de tudo. Descobre, às vezes, quase com uma espécie de embriaguez, que você é livre, que nada lhe pesa, nada lhe agrada nem desagrada.

Mas essa liberdade não se reflete em felicidade. Notadamente influenciado pelo pensamento existencialista, o jovem encontra-se em tal estado de lassidão que nada o comove. Um homem que acaba por estar desprovido de qualquer sentimento, nem alegre ou triste, sem nem mesmo ser um poeta. Um homem que não vive, um sonâmbulo, transeunte morto-vivo nas ruas de uma das mais vivas cidades do mundo.

Encontra-se, nesta vida, sem usura e sem outro estremecimento além dos instantes suspensos provocados pelas cartas ou certos ruídos, certos espetáculos que você concede a si mesmo, uma felicidade quase perfeita, fascinante, às vezes cheia de emoções novas. Você experimenta um repouso total, e constantemente poupado, protegido. Vive numa bem-aventurada digressão, num vazio cheio de promessas e do qual você nada espera.

E assim ele passa todos os seus dias: como um eterno flâneur, perambulando sem tino e sem destino pelas ruas de Paris, pelos museus, pelos cinemas, pelos cafés, sem outra função que não a de testemunha ocular isenta de qualquer envolvimento com o que lhe cerca.

Você é invisível, límpido, transparente. Você não existe mais: a sucessão das horas, dos dias, a mudança das estações, o escoamento do tempo, você sobrevive, sem alegrias e sem tristeza, sem futuro e sem passado, assim, simplesmente, evidentemente, como uma gota d’água que pinga na torneira de um patamar, como seis pés de meia de molho numa bacia de matéria plástica rosa, como uma mosca ou como uma ostra, como uma vaca, como um caracol, como uma criança ou como um velho, como um rato.

No budismo e no hinduísmo existe o conceito de Nirvana, estado consciencial em que o praticante libera-se do apego dos sentidos, da ilusão do mundo (Maya). Mas esse estado conduz o indivíduo a uma identificação maior com o Universo, a Divindade ou consigo mesmo. E isso o leva a um movimento de equilibração, para utilizar um termo piagetiano, ou seja, o equilíbrio na ação, o movimento no repouso, não à estagnação total, não ao egocentrismo, mas à sensação de pertencimento a tudo que lhe cerca.

Quando escrevi meu conto MALÁRIA (disponível no site www.goulartgomes.com), ainda não tinha lido o romance de Perec. Hoje, após a sua leitura, percebo o conto como um prolongamento, um adendo, não à história mas à condição de imobilidade do personagem, com um final “mais ou menos” feliz.

Nesse livro, que deve ser lido de um só fôlego, de uma “sentada”, Perec conseguiu se antecipar a este século XXI, de modernidade tardia, sem a herança de referenciais ou heróis, demonstrando o que seria de um jovem sem “norte”: ao mesmo tempo em que é despossuído de qualquer ideologia, crença, fé, religião, também não se encontra emaranhado entre griffes, realities shows, drogas, álcool e músicas de nenhuma qualidade. Muito mais uma árvore que um ser humano, uma mistura híbrida de planta e de fantasma, como diria Zaratustra. Um livro que nos provoca uma profunda reflexão sobre o que é a Vida e o quanto estamos despertos para vivê-la com intensidade.


Salvador, 21 de janeiro de 2008.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O QUE SE SABE DOS ESCRITORES DESTA TERRA?



O texto a seguir é um resumo de uma palestra proferida pela escritora Gláucia Lemos por ocasião de um café literário. O tema foi desenvolvido pela ficcionista, que discorreu sobre demais aspectos, tendo como centro a literatura.
Gláucia Lemos


Sabemos que há um certo glamour envolvendo algumas atividades, especialmente atividades artísticas, em todas as suas manifestações. Obviamente também em relação aos operários da literatura. Um glamour que nos coloca em situação distinta, na qual somos olhados com alguma curiosidade. Quando alguém sabe que somos escritores vem a pergunta imediata: Qual é O seu livro? Aí acontece o primeiro embaraço: se já publicamos alguns livros, ficamos constrangidos. Que faremos? Citaremos um dos títulos? Ou confessaremos já ter um número mais avultado? Aí dizemos, um pouco envergonhados, como se fosse uma confissão: Tenho alguns publicados, e mencionamos o número. Nesse ponto corremos o risco de ser olhados com um olhar de descrença, como se parecêssemos incapazes de tal proeza. Como se pensassem que se tivéssemos chegado a tal ponto, o certo é que não estaríamos mais aqui, dando sopa “baratamente” pelas ruas da província. Escritor que se preza está morando é no coração da cultura, no eixo Rio-São Paulo., que nem João Ubaldo, Antônio Torres, Hélio Pólvora (que retornou) João Carlos Teixeira Gomes, e alguns outros. Às vezes até perguntam se somos mesmo daqui da Bahia, de Salvador... Que coisa! para baiano dar certo na literatura tem que ir embora? Ou então, se está dando certo na Literatura, tem que ser de outras terras e andar aqui por acaso? Então a gente quase pede desculpas por ser um escritor e por estar conquistando com êxito o seu terreno; é como se estivéssemos expondo uma coisa muito íntima. Há ocasiões em que o "normal " que nos inquire diz algo alentador, como : Já ouvi o seu nome! Gentileza ou não, essa frase melhora a situação, quem sabe, talvez tenha lido em algum texto no jornal... Ruim mesmo é quando pergunta, e é muito freqüente: Sai muito caro para publicar um livro? Aí é a hora do embaraço para explicar que não pago um centavo, pelo contrário, recebo. As editoras são que me pagam meus direitos periodicamente. Essa parte, confesso, me deixa cheia de pudor, ante a expressão de surpresa do interlocutor. Não sei se expressa incredulidade... Parece que estou contando que acertei a mega sena.
Tudo isso de que estou falando tem um objetivo: registrar como andam em baixa os conhecimentos do público em geral, quanto ao escritor da terra, quanto à literatura que se faz aqui, e, modéstia à parte, a boa literatura que temos na Bahia, não somente criada pelos nossos medalhões por demais conhecidos, e reconhecidos, mas também pelos que ainda estão quebrando paredes para instalar vitrine onde colocar seu trabalho, e pelos que, ao lado da seriedade da sua produção, têm contado com a ajuda da boa sorte, entre os quais modestamente me coloco.
Fazendo esses comentários, recordo um episódio ocorrido há uns poucos anos atrás. Chegando à portaria do meu prédio um pacote de exemplares, o reparte de uma nova edição de um dos meus livros, o que recebo conforme contrato, o porteiro curioso perguntou para minha empregada o que havia naquele pacote. Ao saber que eram livros escritos por mim, exclamou: Taí, tá podre de rica fazendo essas besteiras... Coitado... errou duas vezes. Nem estou podre de rica, nem estou fazendo besteiras. Demos aí o desconto do nível de informação do autor do comentário.
Há ainda outra faceta que o escritor enfrenta que é a pecha de sermos diferentes do comum. Temos manias, vemos as coisas por outros ângulos, somos hipocondríacos, somos PMD, somatizamos nossas emoções, enfim, já até assumimos essas coisas, rimos delas e acho que algumas têm razão de ser. Essas facetas são consideradas até mesmo pelos nossos familiares. Não sei se acontece com todos, mas sei que, de modo geral somos considerados um pouco desalinhados da conduta geral, isso é da conduta dos normais. Na minha casa, meus filhos dizem que vejo coisas e situações de um modo diferente do modo das outras pessoas. E sempre que vou ensinar alguém como ir a determinado lugar, eles correm em socorro à vítima, e ensinam eles próprios, porque eu sempre indico o caminho inverso com a melhor das intenções. Deus me livre de prejudicar quem quer que seja. É só porque sou mesmo desorientada quanto ao espaço. Meu marido, quando vivia, nunca me deixou dirigir carro por causa disso. Aí ele morreu e eu fiquei de taxi. Talvez ele não confiasse que eu acertasse a voltar para casa. Mas será que tem a ver com a minha condição de escritora? Ou será que sou escritora porque sou assim, meio fora do mundo? Não importa. Todos nós temos direito de ter nossas características, embora algumas vezes elas incomodem. O mundo seria muito tedioso se todos fossem muito equilibrados. Contando que as nossas idiossincrasias sejam naturais, e não estejamos a fazer gênero para aparecer.
Apesar desses senões, eu jamais descartaria o dom de fantasiar com que a natureza me dotou. E não é só a questão da fantasia, da criação de uma história, dos personagens, do enredo, é muito, é muitíssimo mais, é a paixão pelo trabalho com a palavra. Essa prerrogativa que Deus, ou a natureza, ou como queiramos chamar, doou ao ser humano, é o que de mais forte possuímos, além da vida. A palavra é a liberdade do pensamento, feita concretitude. É a possibilidade do "não-ser "do pensamento transformar-se em “ser”. Através da palavra a abstração da emoção ganha forma e se torna concreta. E essa força pode ser perigosa, tanto quanto pode ser divinizada. Daí a magia de trabalhá-la tornar-se um desafio para o escritor. Na faculdade de Direito eu aprendi o valor e a importância do emprego da palavra exata, para o exercício da profissão na defesa da lei, na qual uma ambigüidade pode significar a derrota em uma causa. Na literatura aprendi como utilizar a ambigüidade da palavra em proveito de um belo texto. O que se torna muito mais gratificante de ser exercitado.
As possibilidades da palavra na sintaxe a partir da sonoridade, no ritmo da sentença experimentando com a tonicidade das sílabas, nos jogos que a homonímia oferece, na elegância que os sinônimos bem postos nos possibilitam. Essa oficina, que alguns escritores dizem ser de cansativa transpiração, se me afigura como as flores a serem postas nos jarros, depois da sala arrumada, e como a decoração da torta, depois de tirada do forno, e como o perfume que vaporizamos no corpo depois que estamos prontas para a festa. Sem essa terminação, sem o verdadeiro trabalho literário, a história, por mais bem engendrada, por mais criativa, não é senão uma narrativa insossa. Não ponho fé nessa afirmativa de transpiração cansativa. A mim, se tem revelado trabalho, sim, trabalho de responsabilidade, sim, mas o trabalho prazeroso, mágico, um trabalho de descobertas para a perfeição do texto, até o máximo de perfeição que possamos atingir dentro da nossa limitação humana. Já que a criação do enredo, o desenvolvimento do tema, isso brota sem esforço e independente da vontade do autor, como rebenta o broto da amêndoa da semente, por conta de criatividade. A história surge espontânea. A oficina do texto é voluntária, dela temos consciência e a essa tarefa nos dispomos, desafiando os deuses que nos fizeram mortais, conforme entende Rollo May no seu ensaio "A coragem de Criar ." . Porque é através dela, da conseqüência da aplicação apaixonada ao trabalho da palavra que alcançamos a imortalidade. Com todo o respeito pelas Academias, é a palavra a que nos dedicamos com paixão o que nos leva a vencer esse desafio e nos imortaliza.
Por isso é que, com os alguns senões e incompreensões que acarreta ser escritor, e com as muitas gratificações que tal nos proporciona, cabe aqui associação com um verso contido em " Dom de iludir ", de Caetano Velloso, que transcrevo na primeira página toda vez que abro um novo caderno. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’ O que no meu caso vem caber não só com a condição de escritora, como igualmente, com a minha condição de mulher.

sábado, 12 de janeiro de 2008

TOALHAS DE PRATOS



Gláucia Lemos


O inverno chegou, no entanto, ainda é maio. O vento carrega os chuviscos miúdos no rumo do Sul, como se os misturasse, e acaba compondo uma nuvem de tênue fumaça, ou um sopro muito leve de talco.
A mulher que vende toalhas de pratos tiradas da sacola de plástico, lá está encostada ao tronco do fícus, tentando abrigar-se sob a copa espalhada. Os galhos não a impedem de receber os pingos escorridos das folhas e os muitos chuviscos que escapam por entre a raquítica ramagem.
O braço esquerdo, magro e negro, suporta, enfiada, a sacola amarela, além de abraçar, apertado ao tronco, um pote de vidro de tampa vermelha, mal cheio de paçoca de amendoim.
No rosto riscado de rugas e amassado pelo tempo, os olhos miúdos têm a neutralidade de quem se deixa ser vivido pela rotina. São baços, piscantes, parecem esfumados, sem cor definida.
Quando o sinal vermelho se impõe ao motorista, ela se aproxima das janelas de vidro suspensas em duvidosa defesa, e oferece as toalhas: uma por dois, três por cinco. A voz é fraquinha, é qual um filete de água que sobrou no encanamento, logo que alguém desligou o registro. Mas caminha decidida, embora manqueje da perna esquerda, um pouco arqueada. Quase sempre retorna com a mesma toalha pendurada nos dedos.
Certo que não compensa, o comércio que faz. Mas sei que sua figura cotidiana integra a paisagem, e é ponto central na aquarela da praça.
Já a vi, a uns cem metros do ponto em que fica todos os dias, ao sol que descolore, cada vez mais, o lenço desbotado amarrado à cabeça, ou à chuva que encharca as flores desmaiadas do sempre mesmo lenço, e escorre entre as valas que o tempo escavou em suas faces escuras.
Freqüentemente tem uma sombrinha que vira ao avesso, quando o vento a pirraça. Às vezes, um casaco sem cor que, vestindo seus braços, ludibria a frieza.
Já a vi em um fim de tarde no ponto de ônibus, a cem metros da praça. Não olhei a bandeira, mas a vi subindo, sem rosto de triste, nem olhos de alegre, apenas subindo, a ocupar qualquer assento, com a sacola amarela pendente do braço, e o vidro de tampa vermelha colado a seu peito. Não sei aonde vai, talvez ela more em um barraco de encosta, das muitas encostas desta minha cidade.
Dia seguinte, vem novamente, seja verão de queimar a pele da gente que passa, seja inverno como este que se apressa neste maio há pouco nascido. Ela estará encostada ao tronco do fícus, tentando abrigar-se, sempre mancando, na direção do carro mais próximo, quando, no farol, a chama vermelha vem em seu socorro.
Não sei se tem filhos, não sei se tem netos, talvez engane meia dúzia de fomes com suas toalhas. Talvez complemente os trocados das mãos de alguma possível garota, mal chegada aos 12, que, na margem da BR, ofereça sua infância ao caminhoneiro que primeiro a aceite. Talvez, talvez... o que posso saber?
Só sei das toalhas de pratos na paisagem da praça.




Gláucia Lemos é poeta e ficcionista. Dentre dezenas, escreveu o premiado romance As chamas da memória (BDA, 1996).

Foto por street paparazzo, retirada do Flickr.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

SONETOS DE ESPELHO PARTIDO


Gerana Damulakis


O livro Espelho Partido (FUNCEB, 1996), de Aramis Ribeiro Costa, traz os sonetos escolhidos dentro de um tempo que parte de 1971, ou seja, poemas do autor muitíssimo jovem, que todavia não publicara seu primeiro livro - Quarto Escuro é de 1974 -, até 1996, quando o romancista e contista já contava com mais de uma dezena de títulos publicados.

Os sonetos que foram escolhidos aqui tratam dos olhos, espelhos da alma, como são conhecidos. Além da qualidade, suscitam interesse também pelo tema com tal tratamento poético, haja vista a quantidade de vezes que são reproduzidos nos blogs. Primeiramente o "Soneto dos Olhos Castanhos", para D. Angélica, e na seqüência, os sonetos para os olhos imaginados pelos leitores.


SONETO DOS OLHOS CASTANHOS

A minha Mãe

Nesses teus olhos de um castanho escuro
Vejo os meus próprios olhos refletidos
Silenciosos, quedos, comovidos
De se encontrarem em lugar tão puro.

E se por vezes tens olhar tão duro
Para os meus atos, quando irrefletidos
Em meus momentos tristes, deprimidos
É teu olhar suave que procuro.

São teus olhos castanhos mostruário
Dos sentimentos todos, teu fadário
Que nobremente guardas no teu peito.

E ao ver teus olhos, vejo, desse jeito
Meus próprios olhos tristes - espelhados
Mortos - nos teus olhos amortalhados.


SONETO DOS OLHOS AZUIS

São como dois azuis perdidos lagos
Teus lagos olhos, mansos olhos rasos
Puríssimos azuis, dos prantos vasos
Perdidos olhos claros como lagos.

Espelham os teus olhos mundos vagos
Lagos espelham sóis azuis, ocasos
Translúcidos azuis dos meus acasos
Teus raros olhos claros, olhos vagos.

Vagueiam sobre mim teus olhos caros
Claríssimos azuis teus olhos raros
Perdidos olhos calmos como lagos.

Espelhos que refletem mundos rasos
Espelham sentimentos que são vasos
Teus olhos tão azuis... azuis... e vagos.


SONETO DOS OLHOS VERDES

Esses teus olhos verdes, cor de mar,
São oceanos verdes de esperança
Onde as vagas, sem fim, do teu olhar
Brincam de amor, em rosto de criança.

Quando esses olhos verdes, a sonhar,
Fazem-se vagas, em brejeira dança,
Sinto a tristeza imensa de te amar
E ter-te sempre apenas em lembrança.

Esses teus olhos verdes, transparentes,
São lindas ondas verdes, envolventes,
A segredar paixão que não confessas...

E nessas ondas mansas ou revoltas,
Sobrenadando qual espumas soltas,
Vejo infinitos feitos de promessas...


SONETO DOS OLHOS NEGROS
Teus olhos negros, tristes e profundos
São dois misteriosos infinitos
Onde os meus olhos vão perder-se aflitos
De conhecer-te os teus secretos mundos!

E sempre que retornam oriundos
Desses teus olhos negros e malditos
Menos sabem meus olhos imperitos
Desses teus olhos pérfidos e fundos.

Teus olhos negros, belos e tristonhos
Eternos pesadelos dos meus sonhos
Mudos espelhos de um secreto abismo!

Ao ver-te os olhos negros, tão bonitos
Deixo os meus olhos nos teus olhos fitos
E nos mistérios dos teus olhos cismo...

EM FRENTE


Gerana Damulakis


Para o escritor Hélio Pólvora



Há Apolo e há Dioniso,
o homem olha os mitos
com fé e reza, ainda que
pareça ateu.

Agora, fechou as janelas:
Hélio brilhando lá fora,
não é Febo, ou Pan, nem
o próprio Zeus, mas
é poderoso e forte,
só que pouco adianta,
ele já fechou suas janelas.



Este poema é do livro Guardador de Mitos.
A foto traz os escritores, da esquerda para a direita: Aramis Ribeiro Costa, James Amado e Hélio Pólvora. Estávamos então na Fundação Casa de Jorge Amado, ao fundo estão as paredes forradas com as capas dos romances de Jorge em traduções pelo mundo.



terça-feira, 8 de janeiro de 2008

UM CENTÃO





Gerana Damulakis

Manuel Bandeira foi o primeiro poeta que li, não foi o primeiro que ouvi, pois que ouvia muitos poetas serem declamados (isto é outra história), mas Bandeira foi o primeiro que li. E me apaixonei não apenas pela poesia e, sim, pela literatura de um modo definitivo, vida afora. Como a poesia de Manuel Bandeira traz a emoção de forma tão intensa e me arrebata sem exceções, optei pelo poema intitulado “Antologia”. Trata-se de um centão.
Um centão é uma composição poética (ou musical) elaborada com versos de vários autores ou de apenas um autor, assim como diz o nome: “manta de retalhos”, que vem do latim “cento”. A origem do centão é greco-latina: o poeta de então clamava por poemas homéricos e virgilianos como ponto de partida para construção de seu centão. No caso de Bandeira, o poema “Antologia” é um centão com seus versos.
Certa noite, resolvi me dedicar ao centão e procurei a origem de verso por verso, todos pertencentes a poemas memoráveis de Manuel Bandeira. Primeiramente seria maravilhoso sentir “Antologia”, perfeito como se sua feitura não tivesse nada de uma “colcha de retalhos”: fruto da magia do mestre.
Vou numerar os versos para facilitar a decifração do lugar original de cada um deles.

ANTOLOGIA

1 A vida
2 Não vale a pena e a dor de ser vivida.
3 Os corpos se entendem mas as almas não.
4 A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

5 Vou-me embora p’ra Pasárgada!
6 Aqui não sou feliz.
7 Quero esquecer tudo:
8 — A dor de ser homem...
9 Este anseio infinito e vão
10 De possuir o que me possui.
11 Quero descansar
12 Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
13 Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
1 4Quero descansar.
15 Morrer.
16 Morrer de corpo e alma.
17 Completamente.
18 (Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

19 Quando a Indesejada das gentes chegar
20 Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
21 A mesa posta,
22 Com cada coisa em seu lugar.

Versos 1 e 2: do “Soneto Inglês”.
Verso 3: de “Arte de amar”.
Verso 4:, de “Pneumotórax”.
Versos 5 e 6: de “Vou-me embora p’ra Pasárgada”.
Verso 7: de “Cantiga”.
Verso 8: de “Presepe”.
Versos 9 e 10: de “Resposta a Vinícius”.
Verso 11: de “Cantiga”.
Verso 12: de “Poema só para Jaime Ovalle”.
Verso 13: de “Pneumotórax”.
Verso 14: de “Cantiga”.
Versos 15, 16 e 17: de “A morte absoluta”.
Verso 18: de “Lua nova”.
Versos 19, 20, 21 e 22: de “Consoada”.

SONETO INGLÊS nº 2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então,
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão
direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

CANTIGA
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

PRESEPE
................
Mais do que tudo isso
O amedrontaria
A dor de ser homem,
O horror de ser homem,
— Esse bicho estranho
Que desarrazoa
.......................

RESPOSTA A VINÍCIUS

Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.
Lúcido, sim; eleito, não.
E bem triste de tantos ais
Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.
Talvez com me bastar, feliz
— Ah feliz como jamais fui! —
Arrancando do coração
— Arrancando pela raiz —
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui
.

POEMA SÓ PARAJAIME OVALLE
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

A MORTE ABSOLUTA

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

LUA NOVA

Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
A partir de uma vez-
Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Aí estão os versos do centão, alguns poemas não foram reproduzidos integralmente por conta do tamanho e “Vou-me embora p’ra Pasárgada”, por ser muito conhecido e facilmente identificável.
Ressalto que Bandeira morreu em 1968; há exatos 40 anos em outubro deste, portanto. A melhor homenagem é sempre a leitura de seus poemas.
Como disse Drummond:
“Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,teu nome é para nós, Manuel, bandeira”.