sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O ANJO LÍRICO DOS PAMPAS


A morte é a libertação total:
a morte é quando a gente pode, afinal,
estar deitado de sapatos.
Mario Quintana

Gerana Damulakis

Foi Augusto Meyer quem disse que “a verdadeira história de um escritor principia na hora da morte”. Desde que Mario Quintana morreu aparecem mais e mais quintanólogos que chegam, a exemplo do que fizeram Meyer e Fausto Cunha, para mostrar o valor do lirismo do anjo dos pampas.

Ele estreou em livro com 37 anos, portanto, como se diz, foi uma estréia tardia. Não faltava editor. Érico Veríssimo, então secretário da Editora Globo, cobrava o livro com insistência. Mas é apenas a publicação que pode ser chamada de tardia porque a obra já estava pronta. O próprio Mario conta que os críticos dividem seus livros em três fases: a simbolista (do primeiro livro, A Rua dos Cataventos, até Sapato Florido); a realista (até O Aprendiz de Feiticeiro); a surrealista. No entanto, não houve essa evolução. Em todos os livros há poemas da época em que A Rua dos Cataventos foi publicado.

A poesia de Quintana traz sempre suas características principais: o humanismo do seu conteúdo e a simplicidade (enganosa simplicidade) de sua forma. É preciso não ser apressado para não concluir erradamente rotulando Quintana de “poeta fácil”; na verdade, essa facilidade imediata é uma ilusão, uma aparência, porque não há soluções fáceis, ele sabe ser simples recorrendo, muitas vezes, à linguagem popular através de um trabalho artesanal com as sutilezas e recursos poéticos. Mario dizia que jamais esperava que o santo da inspiração baixasse, antes puxava-o pelo pé, e isso dá trabalho: trabalho poético.

Introduzido na vida literária por Cecília Meireles quando, em 1927, enviou poemas que a poeta publicou no suplemento literário do Diário de Notícias, Mario Quintana teve aceitação imediata. Em 1966, Manuel Bandeira, em sessão da Academia Brasileira de Letras, fez uma saudação a Quintana, com um poema que se incorporou definitivamente à biografia do poeta do Rio Grande do Sul. As duas primeiras estrofes já evidenciam a admiração de Bandeira:

Meu Quintana, os teus cantares
não são, Quintana, cantares:
são, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

O título de Príncipe dos Poetas Brasileiros, em 1989, foi pouco para Quintana. Poeta presente na maioria das antologias nacionais e estrangeiras, também gravou vários discos de poemas, arrebatou muitos prêmios literários, foi muito louvado. Carlos Drumond de Andrade dizia que a lírica de Quintana “é uma tradução para o simples, de muitos mistérios”.

Mario Quintana - o Mario é assim mesmo: sem acento - nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 30 de julho de 1906. Mario morreu em Porto Alegre, aos 87 anos. Ele disse: “Não gosto que me adjetivem, eu sou um substantivo”. Portanto, vamos ler Mario, o Mario Quintana.

A escolha vai para o soneto "Da vez primeira em que me assassinaram", cuja estrofe inicial traz os versos antológicos: "Da vez primeira em que me assassinaram/ Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.../ Depois, de cada vez que me mataram/ Foram levando qualquer coisa minha..."

É o entendimento do que é comum a todos que está presente no conteúdo lírico verdadeiro, daí a perenidade do poeta, deste poeta imortalizado pelos leitores.

COMPARAÇÃO

Gerana Damulakis

Adoro observar comportamentos, ler histórias, criar histórias (criar histórias que ficam no meu imaginário, elas não chegam ao papel - para tanto, há os escritores) e vou dando mais e mais razão a Oscar Wilde com sua máxima:

A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.


Ilustração: Salvador Dalí.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MARCUS VINÍCIUS: O ALBATROZ DE BAUDELAIRE

Gerana Damulakis

Admiro não apenas o escritor (poeta e contista) Marcos Vinícius Rodrigues, admiro a pessoa. Amanhã é dia de festa: o contista Marcus Vinícius Rodrigues lançará Cada Dia Sobre a Terra (EPP Publicações e Publicidade, 2010), onde cada conto tem como título um dia da semana; sete contos, portanto.

Em uma das "orelhas", Marielson Carvalho atenta: "Tudo nessas histórias nos denuncia como habitantes de Salvador - nós conhecemos seus lugares, mas também nos faz desconhecê-la, porque seus personagens nos dão outra imagem da cidade a partir de suas aventuras e desventuras. Isso possibilita reler nossas próprias experiências citadinas menos como indivíduos resultantes de um censo e mais pelo senso de que nada somos se não nos sentirmos o que quisermos ser".

Local: Solar Cunha Guedes

Hora: 19 h

Data: 26/ 10/ 2010 (terça-feira)

sábado, 23 de outubro de 2010

"DESPRETENSIOSO FILOSOFAR"

Gerana Damulakis

O poema "Momento num café", de Manuel Bandeira, traz, segundo Emanuel de Moraes (em Manuel Bandeira - Análise e interpretação literária), o "despretensioso filosofar" do poeta, indicando sua crença de que, com a libertação da alma e tudo que lhe pertence - as dores, as angústias e as frustações -, a matéria, enfim, estaria livre.
Vale notar que Bandeira, neste poema, fala de uma morte que não é a dele ( coisa rara no poeta que escreveu: - Eu faço versos como quem morre, em "Desencanto").

MOMENTO NUM CAFÉ
------------------Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.


Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

---------------------------------------iin Estrela da manhã

Ilustração:O grande bar, de Alberto Sughi (1928- ), da série temática Noturnos, 2000.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

GLÁUCIA LEMOS NA ALB



Dia 21 de outubro, quinta-feira, na Academia de Letras da Bahia , toma posse na cadeira 14, a escritora Gláucia Lemos.

Romancista, contista, poeta, Gláucia tem 34 títulos publicados, muitos deles premiados. Também autora de literatura infantil, seu mais recente título foi de poesia, e o mais recente romance, Bichos de Conchas, teve grande repercussão.

Gláucia Lemos será recebida pelo acadêmico Waldir Freitas Oliveira, às 20 horas, em noite de festa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

OS POETAS FÁUSTICOS


Os tempos fáusticos na lírica do lugar, de Dalila Machado, cujo lançamento está marcado para o dia 20 de outubro, quarta-feira, na Biblioteca Pública do Estado, a partir das 19 horas, cria uma ponte entre três poetas baianos. Nas palavras de Dalila: " A ponte entre Luiz José Junqueira Freire, Pedro Kilkerry e Alberto Luiz Baraúna, poetas fáusticos, já existia, sempre existiu, aliás, fui lá e descobri, voltei e escrevi e agora quero dar a ler o achado, o encontrado, a riqueza do legado poético que herdamos e que temos o direito de tomar posse".

As expressões "poetas fáusticos", "tempos fáusticos", foram criadas por Dalila Machado, bem como a hipótese teórica de que existe uma vertente demoníaca na literatura ocidental, que a literatura brasileira acompanha muito bem.

Dalila explica seu interesse: "Desde o meu mestrado, defendido em 1989, na UFBA, em teoria da literatura, trabalho com essa hipótese, minha dissertação foi sobre a questão do pacto na literatura, chama-se "O pacto de Fausto e a modernidade", onde mostro a evolução desse tema, desde o Fausto de Goethe até Grande sertão: veredas, do Rosa, passando por outros dois momentos, o dos poetas malditos franceses e o do Doutor Fausto, de Mann".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

UM TEMA, DOIS GÊNEROS


Gerana Damulakis

Contista de primeira, o norte-americano Raymond Carver (1938-1988) fez um poema para um conto seu. O conto é “Me telefone se precisar”, encontrado no volume 68 Contos de Raymond Carver (Companhia das Letras, 2010), com tradução de Rubens Figueredo. A revista serrote (nº 2, julho de 2009), uma publicação do Instituto Moreira Salles, apresentou o conto seguido do poema, “deixando claro como Carver atualizava o gênero da poesia narrativa para a sensibilidade contemporânea”. O poema, com o mesmo tema e o mesmo episódio do conto, demonstra a capacidade de Raymond Carver nos dois gêneros. A tradução do poema é de Rodrigo Lacerda.

TARDE DA NOITE COM NÉVOA E CAVALOS
----------------------Raymond Carver

Estavam na sala. Dizendo
adeus. A perda ressoando nos ouvidos.
Tinham vivido muita coisa juntos, porém agora
não podiam dar nem mais um passo. Além disso,
ele tinha outra pessoa. Lágrimas caíam
quando um cavalo pisou fora da névoa
no jardim da frente. Depois mais um, e
mais um. Ela saiu da casa e disse:
“De onde vocês vieram, cavalinhos?”.
E avançou por entre eles, chorando,
tocando seus dorsos. Os cavalos começaram
a pastar no jardim da frente.
Ele fez duas ligações: uma foi direto
para a polícia: “Os cavalos de alguém estão soltos”.
Mas teve a outra chamada, também.
Então se juntou à esposa na frente,
no jardim, onde os dois falaram e murmuraram
com os cavalos. (O que estava
acontecendo, acontecia em outro tempo.)
Os cavalos podaram a grama do jardim
aquela noite. Uma luz vermelha de emergência
brilhou quando um sedã veio rastejando pela névoa.
Vozes atravessaram a neblina.
Ao final daquela noite comprida,
quando finalmente puseram os braços em volta
um do outro, seu abraço estava cheio de
paixão e lembrança. Um evocava
a juventude do outro. Alguma coisa chegara ao fim,
outra vinha entrando com força para tomar o lugar.
Chegou a hora da despedida.
“Adeus, vá em frente”, ela disse.
E o distanciamento.
Muito depois,
o homem lembrava de um telefonema desastroso.
Um que ficara ecoando, ecoando,
feito maldição. No final das contas
foi o que sobrou. O resto da sua vida.
Maldição.

Ilustração: A Torre dos Cavalos Azuis, de Franz Marc (1880-1916).