quarta-feira, 20 de outubro de 2010

GLÁUCIA LEMOS NA ALB



Dia 21 de outubro, quinta-feira, na Academia de Letras da Bahia , toma posse na cadeira 14, a escritora Gláucia Lemos.

Romancista, contista, poeta, Gláucia tem 34 títulos publicados, muitos deles premiados. Também autora de literatura infantil, seu mais recente título foi de poesia, e o mais recente romance, Bichos de Conchas, teve grande repercussão.

Gláucia Lemos será recebida pelo acadêmico Waldir Freitas Oliveira, às 20 horas, em noite de festa.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

OS POETAS FÁUSTICOS


Os tempos fáusticos na lírica do lugar, de Dalila Machado, cujo lançamento está marcado para o dia 20 de outubro, quarta-feira, na Biblioteca Pública do Estado, a partir das 19 horas, cria uma ponte entre três poetas baianos. Nas palavras de Dalila: " A ponte entre Luiz José Junqueira Freire, Pedro Kilkerry e Alberto Luiz Baraúna, poetas fáusticos, já existia, sempre existiu, aliás, fui lá e descobri, voltei e escrevi e agora quero dar a ler o achado, o encontrado, a riqueza do legado poético que herdamos e que temos o direito de tomar posse".

As expressões "poetas fáusticos", "tempos fáusticos", foram criadas por Dalila Machado, bem como a hipótese teórica de que existe uma vertente demoníaca na literatura ocidental, que a literatura brasileira acompanha muito bem.

Dalila explica seu interesse: "Desde o meu mestrado, defendido em 1989, na UFBA, em teoria da literatura, trabalho com essa hipótese, minha dissertação foi sobre a questão do pacto na literatura, chama-se "O pacto de Fausto e a modernidade", onde mostro a evolução desse tema, desde o Fausto de Goethe até Grande sertão: veredas, do Rosa, passando por outros dois momentos, o dos poetas malditos franceses e o do Doutor Fausto, de Mann".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

UM TEMA, DOIS GÊNEROS


Gerana Damulakis

Contista de primeira, o norte-americano Raymond Carver (1938-1988) fez um poema para um conto seu. O conto é “Me telefone se precisar”, encontrado no volume 68 Contos de Raymond Carver (Companhia das Letras, 2010), com tradução de Rubens Figueredo. A revista serrote (nº 2, julho de 2009), uma publicação do Instituto Moreira Salles, apresentou o conto seguido do poema, “deixando claro como Carver atualizava o gênero da poesia narrativa para a sensibilidade contemporânea”. O poema, com o mesmo tema e o mesmo episódio do conto, demonstra a capacidade de Raymond Carver nos dois gêneros. A tradução do poema é de Rodrigo Lacerda.

TARDE DA NOITE COM NÉVOA E CAVALOS
----------------------Raymond Carver

Estavam na sala. Dizendo
adeus. A perda ressoando nos ouvidos.
Tinham vivido muita coisa juntos, porém agora
não podiam dar nem mais um passo. Além disso,
ele tinha outra pessoa. Lágrimas caíam
quando um cavalo pisou fora da névoa
no jardim da frente. Depois mais um, e
mais um. Ela saiu da casa e disse:
“De onde vocês vieram, cavalinhos?”.
E avançou por entre eles, chorando,
tocando seus dorsos. Os cavalos começaram
a pastar no jardim da frente.
Ele fez duas ligações: uma foi direto
para a polícia: “Os cavalos de alguém estão soltos”.
Mas teve a outra chamada, também.
Então se juntou à esposa na frente,
no jardim, onde os dois falaram e murmuraram
com os cavalos. (O que estava
acontecendo, acontecia em outro tempo.)
Os cavalos podaram a grama do jardim
aquela noite. Uma luz vermelha de emergência
brilhou quando um sedã veio rastejando pela névoa.
Vozes atravessaram a neblina.
Ao final daquela noite comprida,
quando finalmente puseram os braços em volta
um do outro, seu abraço estava cheio de
paixão e lembrança. Um evocava
a juventude do outro. Alguma coisa chegara ao fim,
outra vinha entrando com força para tomar o lugar.
Chegou a hora da despedida.
“Adeus, vá em frente”, ela disse.
E o distanciamento.
Muito depois,
o homem lembrava de um telefonema desastroso.
Um que ficara ecoando, ecoando,
feito maldição. No final das contas
foi o que sobrou. O resto da sua vida.
Maldição.

Ilustração: A Torre dos Cavalos Azuis, de Franz Marc (1880-1916).

domingo, 17 de outubro de 2010

AS FLORES DO OCASO




Gerana Damulakis

Bernardo Linhares faz o que deseja com as palavras, com os versos e com as estrofes, com seus poemas: se resolve escolher o soneto porque o conteúdo condiz com a forma fixa, então, será um soneto perfeito — sempre penso que Sosígenes Costa adoraria os sonetos de Bernardo; se quer sutilmente usar o humor e a ironia, recorre a recursos finos, para o bom entendedor; se, mais uma vez, resolve encantar totalmente o leitor, recorre ao lirismo mais envolvente.

Em quatro versos, o poema “Menina dos olhos” cria uma imagem tão rica e bela, que fiquei tentada a colocar aqui. Depois, pensei em “Sonho de valsa”, que já li várias vezes, pela criação especial. Mas, há ainda um dos perfeitos sonetos, há o "Pássaro dourado", para Hélio Pólvora etc, só que acabei escolhendo o poema que me toca mais de perto, porque antes de tudo o sentimento. De As Flores do Ocaso (Via Litterarum, 2010):

PRECE

-------Bernardo Linhares

Escutei o silêncio meu amor
da sua oração, celebrando a vida
num altar de espelhos.
Senti na sua boca
a ressurreição da carne
comungada num beijo.
Em devota posição, seu amor,
meu amor, me provaste de joelhos.

Ilustração: Cutting Origami, de Edmund Charles Tarbell (1862-1938).

SILÊNCIOS




Gerana Damulakis

Silêncios (Via Litterarum, 2010), de Gustavo Felicíssimo, é o belo volume que traz as formas poéticas: haikai, senryu, tanka, haibun, devidamente explicadas no começo de cada capítulo. Mas, há também, encerrando o volume, o ensaio “Flores de Cerejeira – Aspectos do Haikai no Brasil”, que adianta um pouco o futuro livro Dendê no Haikai, sobre o haikai na Bahia.

Particularmente, encantou-me o haibun de Gustavo para sua filhinha Flora. O haibun, como Felicíssimo explica, “contém um texto em prosa, seguido por um ou mais haikai. Escreve-se a prosa de forma simples e direta, compacta. O objetivo do haikai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente”.

De Gustavo Felicíssimo:

HAIBUN PARA FLORA

A flor desprendida do galho é uma tentativa de voo, e cada voo é sempre maior que a sua distância. Há no ar, levado pelo vento, um jardim de flores múltiplas aprendendo a voar.

borboletas são flores
que afinal foram voar —
voa, minha flor!

-----------------------------------------------uma flor pousou
------------------------------------na minha vida de poeta —
-----------------------------------------------eu sorri para ela.


Ilustração: Hibiscos e pardal, de Katsushika Hokusai (1760-1849).

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"O LEITOR TORNOU-SE O LIVRO"


Gerana Damulakis

Um poema para o leitor. De Wallace Stevens (1879-1955). Creio que outras palavras não sejam necessárias.

A CASA ESTAVA QUIETA E O MUNDO ESTAVA CALMO

--------------------------Wallace Stevens

A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de estio

era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

As palavras eram faladas qual se não houvesse livro;
mas o leitor sobre a página se curvava,

queria curvar-se, queria muito ser
o sábio para quem seu livro é verdadeiro

e a noite de estio é como a perfeição do pensamento.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

A paz era parte do sentido e do espírito:
o acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. A verdade em tal mundo,
onde não há outro sentido, ela própria,

é calma, ela própria é noite e estio, ela própria
é o leitor curvado até tarde e lendo ali.

Tradução de Abgar Renault in Poesia: tradução e versão (Record, 1994).

Ilustração: Mulher lendo, de Alexander Deineka (1899-1969).

domingo, 10 de outubro de 2010

COISAS DO DIREITO


Gerana Damulakis

O que se segue foi contado pelo poeta Sidney Wanderley por e-mail, mas é oportuno, ainda que fora do contexto da nossa conversa virtual. Gostei tanto que pedi sua autorização para reproduzir aqui.

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um
barulho estranho vindo do quintal. Indo até lá, constatou ha-
ver um ladrão tentando levar seus patos de estimação. Apro-
ximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao
tentar pular o muro com suas amadas aves, disse-lhe:

− Ó bucéfalo anácroto! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos
emplumados bípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de pro-
fanares o recôndito de minha residência, levando meus ovíparos
à socapa e à sorrelfa. Se fazes isso por necessidade, transijo;
mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cida-
dão digno e altaneiro, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem
no alto de tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei
à quinquagésima potência do que o vulgo denomina a partícula in-
significante do átomo!!!

E o ladrão, sem pestanejar, respondeu ao mestre baiano:
− Doutor, não entendi: eu deixo ou levo os patos?

Conto essa história, inutilmente, para ver se consigo reduzir um
pouquinho a pedanteria e a linguagem empolada dos "operado-
res do Direito". Como disse, inutilmente.

SIDNEY WANDERLEY