domingo, 17 de outubro de 2010

AS FLORES DO OCASO




Gerana Damulakis

Bernardo Linhares faz o que deseja com as palavras, com os versos e com as estrofes, com seus poemas: se resolve escolher o soneto porque o conteúdo condiz com a forma fixa, então, será um soneto perfeito — sempre penso que Sosígenes Costa adoraria os sonetos de Bernardo; se quer sutilmente usar o humor e a ironia, recorre a recursos finos, para o bom entendedor; se, mais uma vez, resolve encantar totalmente o leitor, recorre ao lirismo mais envolvente.

Em quatro versos, o poema “Menina dos olhos” cria uma imagem tão rica e bela, que fiquei tentada a colocar aqui. Depois, pensei em “Sonho de valsa”, que já li várias vezes, pela criação especial. Mas, há ainda um dos perfeitos sonetos, há o "Pássaro dourado", para Hélio Pólvora etc, só que acabei escolhendo o poema que me toca mais de perto, porque antes de tudo o sentimento. De As Flores do Ocaso (Via Litterarum, 2010):

PRECE

-------Bernardo Linhares

Escutei o silêncio meu amor
da sua oração, celebrando a vida
num altar de espelhos.
Senti na sua boca
a ressurreição da carne
comungada num beijo.
Em devota posição, seu amor,
meu amor, me provaste de joelhos.

Ilustração: Cutting Origami, de Edmund Charles Tarbell (1862-1938).

SILÊNCIOS




Gerana Damulakis

Silêncios (Via Litterarum, 2010), de Gustavo Felicíssimo, é o belo volume que traz as formas poéticas: haikai, senryu, tanka, haibun, devidamente explicadas no começo de cada capítulo. Mas, há também, encerrando o volume, o ensaio “Flores de Cerejeira – Aspectos do Haikai no Brasil”, que adianta um pouco o futuro livro Dendê no Haikai, sobre o haikai na Bahia.

Particularmente, encantou-me o haibun de Gustavo para sua filhinha Flora. O haibun, como Felicíssimo explica, “contém um texto em prosa, seguido por um ou mais haikai. Escreve-se a prosa de forma simples e direta, compacta. O objetivo do haikai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente”.

De Gustavo Felicíssimo:

HAIBUN PARA FLORA

A flor desprendida do galho é uma tentativa de voo, e cada voo é sempre maior que a sua distância. Há no ar, levado pelo vento, um jardim de flores múltiplas aprendendo a voar.

borboletas são flores
que afinal foram voar —
voa, minha flor!

-----------------------------------------------uma flor pousou
------------------------------------na minha vida de poeta —
-----------------------------------------------eu sorri para ela.


Ilustração: Hibiscos e pardal, de Katsushika Hokusai (1760-1849).

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"O LEITOR TORNOU-SE O LIVRO"


Gerana Damulakis

Um poema para o leitor. De Wallace Stevens (1879-1955). Creio que outras palavras não sejam necessárias.

A CASA ESTAVA QUIETA E O MUNDO ESTAVA CALMO

--------------------------Wallace Stevens

A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de estio

era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

As palavras eram faladas qual se não houvesse livro;
mas o leitor sobre a página se curvava,

queria curvar-se, queria muito ser
o sábio para quem seu livro é verdadeiro

e a noite de estio é como a perfeição do pensamento.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

A paz era parte do sentido e do espírito:
o acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. A verdade em tal mundo,
onde não há outro sentido, ela própria,

é calma, ela própria é noite e estio, ela própria
é o leitor curvado até tarde e lendo ali.

Tradução de Abgar Renault in Poesia: tradução e versão (Record, 1994).

Ilustração: Mulher lendo, de Alexander Deineka (1899-1969).

domingo, 10 de outubro de 2010

COISAS DO DIREITO


Gerana Damulakis

O que se segue foi contado pelo poeta Sidney Wanderley por e-mail, mas é oportuno, ainda que fora do contexto da nossa conversa virtual. Gostei tanto que pedi sua autorização para reproduzir aqui.

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um
barulho estranho vindo do quintal. Indo até lá, constatou ha-
ver um ladrão tentando levar seus patos de estimação. Apro-
ximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao
tentar pular o muro com suas amadas aves, disse-lhe:

− Ó bucéfalo anácroto! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos
emplumados bípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de pro-
fanares o recôndito de minha residência, levando meus ovíparos
à socapa e à sorrelfa. Se fazes isso por necessidade, transijo;
mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cida-
dão digno e altaneiro, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem
no alto de tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei
à quinquagésima potência do que o vulgo denomina a partícula in-
significante do átomo!!!

E o ladrão, sem pestanejar, respondeu ao mestre baiano:
− Doutor, não entendi: eu deixo ou levo os patos?

Conto essa história, inutilmente, para ver se consigo reduzir um
pouquinho a pedanteria e a linguagem empolada dos "operado-
res do Direito". Como disse, inutilmente.

SIDNEY WANDERLEY

sábado, 9 de outubro de 2010

CIRANDAS


Hoje seria bom dançar, seria bom lembrar uma ciranda. Hoje, um soneto de Aramis Ribeiro Costa, do livro Espelho Partido.


CIRANDAS

-------------------Aramis Ribeiro Costa

Aquele anel que tu me deste e que era
De vidro se quebrou. Aquele amor
Que tu me tinhas (tinhas? Eu quisera!)
Era pouco, tão pouco, que acabou.

Ciranda, cirandinha em primavera
Parece coisa boba, sem valor
Mas a ciranda (ah!, controlar, quem dera!)
Foi rodando, e meus sonhos me levou...

Hoje inverno cirandas de uma espera
Na amargura de tempos sem calor
(Ah, cirandas, pará-las quem pudera

Salvando o que de sonhos me restou!)
Cirandas, cirandinhas a rodar
A volta, e volta e meia vamos dar...


Ilustração: A dança, de Henri Matisse (1869-1954).

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2010: MARIO VARGAS LLOSA

Gerana Damulakis

E o Nobel de Literatura 2010 é de Mario Vargas Llosa: merecidíssimo! Grandes romances, grandes novelas e contos, e um ensaísta de uma lucidez ímpar.
Meus romances preferidos: Tia Julia e o escrevinhador e Travessuras da menina má.
Minha novela: Quem matou Palomino Molero? (eu considero novela, apesar de ser catalogado como romance).
Volume de contos: Os chefes, os filhotes (lido recentemente; na parte intitulada Os chefes há contos, mas Os filhotes é uma novela).
Grandes ensaios nos livros: Contra vento e maré e A verdade das mentiras (este último, ainda que não goste de releituras, leio e releio, quem sabe aprendo um pouquinho a registrar sensações de leitura com a maestria de Vargas Llosa).
Total que fiquei muito alegre com o prêmio, tanto porque admiro o escritor, quanto por ser um nome do nosso continente, a América do Sul.