
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
QUINTA-FEIRA NA ALB

Na Academia de Letras da Bahia, quinta-feira, às 17 horas, os escritores Armando Avena e Marcus Vinícius Rodrigues farão a leitura de seus textos, que serão comentados respectivamente por Andréa Hack e Gerana Damulakis.
O conto de Marcus Vinícius Rodrigues que comentarei será "A Tarde de um Fauno", do livro Eros Resoluto (Edições P55, 2010).
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
GENIAL TCHEKHOV

Gerana Damulakis
A genialidade de Anton Tchekhov está no conto que, a partir do simples, encerra um conteúdo de emoção muitas vezes torturante. "É que a intenção de Tchekhov se mascara de sutis subentendidos", segundo Herman Lima.
Penso que o sentido de seus contos está em nós, leitores. Uma frase - um trecho, uma história inteira - é como uma flecha que vai acertar o alvo, ou não. As duas frases do conto "O Bisbilhoteiro" acertam em mim:
(...) Mas não há felicidade absoluta nesta vida. A própria felicidade contém o seu veneno que vem de fora e a vulnera.
Tchekhov
Ilustração: Venus Verticordia, de Dante Gabriel Rossetti (1828-1882).
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A GRANDE CENA DE AMOR E MORTE
Gerana DamulakisA grande cena de morte da literatura brasileira é também uma grande cena de amor. Num só instante: morte, desvendamento de um mistério, confirmação de um amor.
João Guimarães Rosa: o Rosa, o grande Rosa e, na minha opinião, a grande cena de amor e morte da literatura brasileira. Até hoje faço a leitura da cena tomada de emoção, até hoje ainda fico arrepiada com a intensidade da emoção que as linhas abaixo são capazes de transmitir.
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; (...) Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
.........................................................................................................................................................
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
— Meu amor!...
João Guimarães Rosa: o Rosa, o grande Rosa e, na minha opinião, a grande cena de amor e morte da literatura brasileira. Até hoje faço a leitura da cena tomada de emoção, até hoje ainda fico arrepiada com a intensidade da emoção que as linhas abaixo são capazes de transmitir.
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; (...) Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
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Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
— Meu amor!...
João Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas
Ilustração: Detalhe de mulher diante do espelho, de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).
terça-feira, 21 de setembro de 2010
INÚTEIS LUAS OBSCENAS
O tumulto interiorGerana Damulakis
O Surdo é o grande personagem do romance de Hélio Pólvora, Inúteis Luas Obscenas (Casarão do Verbo, 2010). Uma história apaixonante que reúne paixões e vinganças bajo la misma luna, como diria um poeta espanhol. O Surdo foi parar no sul da Bahia; viúvo, criou os filhos Jonas e Regina, que se transformam após a primeira das várias paixões da narrativa, quando Jonas se enamora de Celina, filha de um potentado.
Em Valise de Cronópio (Perspectiva, 2004), Júlio Cortázar entende que, para sequestrar momentaneamente o leitor, o estilo de um texto deverá conter intensidade e tensão. A intensidade da ação e a tensão da narrativa resultam do “ofício de escritor”, do que se conclui a existência de variantes tanto de intensidade quanto de tensão.
Inúteis Luas Obscenas tem estrutura plurifocal, à base de camadas superpostas: se uma delas, de dimensão filosófica e existencial, cruza todo o livro, outra, subordinada tematicamente, é circunstancial. Sob tal perspectiva a narrativa se enriquece em artifícios de montagem: os dois estratos marcham, em associação de ritmo, representam momentos num só ímpeto do trajeto. As personagens narram e são narradas entre si; e mais: passam pelo crivo crítico do narrador onisciente.
A tensão interna é mantida em patamar alto, enquanto a intensidade admite alternativa de proposta mista — privilégio este do próprio gênero romance. Na medida em que avança a narrativa da primeira camada, e as personagens se desnudam, o outro plano, como reforço harmonioso de alicerces muitas vezes alegóricos, enfoca questões, reflexões, observações propositadamente caricaturais das personagens colhidas na empreitada dos afazeres e perplexidades cotidianos. Tudo isso sob a luneta do narrador lúcido. Cada personagem do núcleo ficcional se exprime de forma a revelar suas intimidades, o que ocorre por conta dos trechos em itálico, iniciadores dos módulos narrativos da primeira e da segunda parte do romance: “Fuga” e “Purgação dos Pecados”. Tais aberturas, espécie de proêmio do coro na tragédia grega, são confissões como que ao pé do ouvido do leitor. A lua tudo banha com um fatalista palor irônico, porque o romantismo do rapto da donzela pelo cavalheiro pobre travestido de príncipe decerto prenuncia desastre.
Celina, assim nomeada com vistas à Selene grega, deusa de todas as luas, precipita a tragédia, pois é uma lua funesta. As personagens guardam representações: o Jonas bíblico engolido pela baleia e cativo de um exíguo desespero em último grau; Regina, a que rege, pois é rainha, daí o voluntarismo, a necessidade de vingança, quando da ocupação de seu espaço por Celina; e, por fim, o Surdo. Será de fato surdo como aparenta, ou a surdez funciona como anteparo? Na surdez ele se dissimula, ela o instiga a fazer perguntas, algumas perigosas. Fascinantes, todas essas personagens nas suas interações, até mesmo os coadjuvantes como Josefino Calango, ensurdecido, emudecido e cego pela pobreza absoluta.
Em romance de personagens, e que não se furta a cenas dramáticas, como é (ou era) característica do gênero, Hélio Pólvora introduz a novidade de dois epílogos, mas, ao contrário das prosas experimentais, as manobras intelectivas orientadas para as suspensões são completadas e desenredadas por desdobramentos imagéticos, como quer o romancista. Ele deseja que o leitor escolha o epílogo, segundo narração de Regina ou segundo narração de Celina, se não preferir, por acaso, um terceiro. As “leituras” se sucedem.
O romance percorre, nos dois extratos de sua complexa estruturação, a trilha por onde seguem o narrador, as personagens e o leitor, mas sempre atiçados por uma atividade dual: ajustar as interfaces, integrá-las. Finda a narrativa, sabemos que é circular: no início a filha do Surdo é informada da morte do pai, pois a história a ser narrada já fora concluída. Esta sensação de circularidade patenteia o papel do segundo estrato na estrutura. Há impressionismo e simbolismo neste romance tão rico. O impressionismo nas paisagens descritas, tal como se olhássemos um quadro de Monet. O simbolismo está no centro dual enaltecido por imagens da lua: é na lua nova que Jonas vai raptar Celina, montado num cavalo ofegante que a acolhe debaixo de sua janela.
A lua também é pintada, tem cores, a lua é vermelha e é azul. Quando há dois plenilúnios em um mês é o que se chama de lua azul, once in a blue moon, uma vez na vida, ou raramente, ou quase nunca. “Minha lua azul foi Celina”. Este pensamento-chave, núcleo da força temática, segura a narrativa rumo o fim circular, irradia elos de significações analógicas e metafóricas: “Estalou na minha vida como um relâmpago. Tomara que dure mais que um relâmpago”, outro pensamento do Surdo.
As reflexões do Surdo, acentuadas na terceira parte do romance, “No Rio-do-Braço”, abrem sendas luzentes, tão lúcidas ao ponto de rastrear a simbologia de uma viagem maior — a viagem existencial, com as suas paixões, vinganças e quimeras.
Diversos recursos técnicos propiciam um romance que pulsa de vida e imaginação, encerra substância robustecida pela veia artística inquestionável de Hélio Pólvora, mescla de escritor-poeta e filósofo. Assim, o romance evoca a Bíblia, invoca a mitologia grega, traça um conto de fadas, cita obras literárias, recheia a narrativa com ditados populares.
Esse Surdo pensador não deixa de ser o homem telúrico enroscado nas teias de uma ação forjada pelos costumes, tradições, mitos e lendas. A referência ao espaço é precisa — a região dos cacauais do sul da Bahia. No entanto, a reflexão é sobre o homem apanhado no seu espaço interior, quando o tumulto interno se avoluma. Hélio escolhe olhar o homem na proposta maior de descortinar dois mundos: o íntimo e o social, com um toque de fatalidade acumpliciada, que a cupidez, a luxúria, as paixões e as purgações ilustram.
O discurso, tantas vezes impressionista na pintura de paisagens, ao fim e ao cabo sobe a escala do romance épico, inflamado nos braseiros da avivada visão crítica que caracteriza o escritor Hélio Pólvora em todos os gêneros por ele cultivados: visão crítica do homem, de suas fraquezas, ânsias e coragens, da realidade e da sociedade que o condicionam e, muito importante, da linguagem que o traduz. Obra de grande escritor, aquele que nos torna mais impressionáveis e argutos.
Publicado no jornal A TARDE, em 18-09-2010.
Presente também na edição de setembro da Revista Eletrônica Verbo21 Cultura & Literatura: http://www.verbo21.com.br/
domingo, 19 de setembro de 2010
A FORÇA DOS SENTIDOS
Gerana DamulakisÉ espantosa a força dos sentidos sobre os estados da alma. Um sensualista como Ernest Hemingway sabia usar os sentidos para saborear melhor a vida. Só para citar um exemplo: as mulheres sabem o quanto o chocolate traz felicidade. Mas, quem precisa de exemplos, se podemos ler sobre a força dos sentidos no trecho retirado de Paris é uma festa (Bertrand Brasil, 2000)?
Comi as ostras, que possuíam forte gosto de mar e um leve travo metálico que o vinho branco gelado lavava, deixando somente o gosto de mar e a suculenta textura. À medida que ia sorvendo o líquido frio de cada concha e o fazia descer acompanhado do estimulante sabor do vinho, o sentimento do vazio foi me abandonando e me vi de novo feliz, cheio de planos.
Ernest Hemingway in Paris é uma festa, p. 21Ilustração: Au Café, de Jean Béraud (1849-1935).
sábado, 18 de setembro de 2010
"LUXE, CALME ET VOLUPTÉ"

Gerana Damulakis
Uma leitura puxa outra. Durante a leitura do conto “O roteirista”, de Charles D’Ambrosio, no livro O museu do peixe morto (Grua, 2010), encontrei o narrador descrevendo um certo ambiente e, numa altura, ele soltou um verso: “Luxe, calme et volupté”. Como o verso está em itálico e há uma nota no final, fui (com minha excessiva curiosidade) verificar qual era o poeta.
Resultado: a citação é o verso do famoso poema “L’Invitation au voyage”, de Charles Baudelaire. Retirei da estante o meu exemplar de As Flores do Mal (Nova Fronteira, 1985), edição bilíngue, com tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira e li o poema. Outro resultado: a postagem de agora.
O CONVITE À VIAGEM
Charles Baudelaire
Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
— Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canais, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.
Ilustração: Girl with Sailboat, de Edmund Charles Tarbell (1862-1938).
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A SEGUNDA SOMBRA
EMBRIAGUEZ AMOROSA
Carlos Barbosa
Diante do abismo, recuo um passo. E me ajoelho, trêmulo. A outra margem torna-se um tênue aceno; o abismo, tudo. No profundo rio que o preenche, mergulho meu mais doce pensamento. Que por lá fica a voltear, feito isca insípida e imprópria. Não há retorno para ele nem para meus passos. Tomado pelo abismo, finco minha morada no barro da borda. À espreita, não sonho pontes nem aspiro pela outra margem. Apenas domo o desejo enquanto lapido a coragem para o inevitável salto.
Carlos Barbosa é autor de Água de cacimba, de 1998, A dama do Velho Chico, de 2002, Matalotagem, lançado em 2006, e os editados em 2010: o romance Beira de rio, correnteza e, o de amanhã, A segunda sombra.
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