sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A SEGUNDA SOMBRA
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
UM GRANDE POETA

Gerana Damulakis
Carlos Pena Filho (1929-1960) é um grande nome da poesia brasileira do século 20, contudo se pode pensar e indagar: "Como ele é grande, se não é lembrado como são lembrados e louvados Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto (só para citar poucos nomes)?"
Nem todo grande poeta alcança a notoriedade nacional, mas, ainda assim, do ponto de vista da arte literária será sempre um grande poeta.
TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO
--------------Carlos Pena Filho
Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim…”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
Ilustração: Claude Monet (1840-1926). Femme assise sur un banc (Mulher sentada num banco), de 1874, National Gallery, London, UK.
sábado, 11 de setembro de 2010
A POSSIBILIDADE DE UMA ILHA

Gerana Damulakis
Ilustração: Summer Evening, de Edward Hopper (1882-1967).
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
FERREIRA GULLAR: 80 ANOS
Gerana DamulakisUma homenagem...
CANTIGA PARA NÃO MORRER
-----------------Ferreira Gullar
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
-----------in Dentro da noite veloz
Ilustração: Hélio Oiticica (1937-1980).
ACONTECE QUE EU SOU BAIANO
terça-feira, 7 de setembro de 2010
UM POETA HEDIONDO EXTRAORDINÁRIO

Gerana Damulakis
Augusto dos Anjos (1884-1914) intitulou o seu livro de poemas Eu, publicado em 1912, talvez porque tivesse total consciência da singularidade de sua poesia.Talvez? Ele era tão consciente que, antecipando estranhamentos, escreveu “Noli me tangere”, quando pinta a si mesmo.
NOLI ME TANGERE
----------Augusto dos Anjos
A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!
Eu sou, por consequência, um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!
Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas...
Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!
Ilustração: Salvador Dalí, Crianças Geopolíticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem.
sábado, 4 de setembro de 2010
FICCIONISTA E POETA
Ao contrário da maioria, conheci primeiramente a prosa de Marcus Vinícius Rodrigues e, por isto, se considero a admiração que tenho por seus contos, sua poesia ficou um tanto de lado. Mas, Marcus é ficcionista e poeta, é poeta e ficcionista. Retirado da revista cultural eletrônica Diversos Afins, de Fabrício Brandão & Leila Andrade:
A CASA DE EROS
-------------Marcus Vinícius Rodrigues
Sei bem do amanhã a bater na porta,
sei bem do sol em nossa janela,
o adeus ofuscante nas frestas.
Sei bem que nada é meu
neste teu corpo que volta
ao dia das ruas lá fora.
E é só por saber tanto
que me arrumo casa arejada
para cada nosso furtivo encontro.
Faço-me quarto que nunca acaba,
faço-me noite morna e serena,
faço-me o tempo que não escapa.
E quando enfim te engolir a cidade,
com suas horas atropeladas,
ainda que abandonado, serei tua casa.
