sábado, 11 de setembro de 2010

A POSSIBILIDADE DE UMA ILHA


Gerana Damulakis

Um escritor implacável, com textos cortantes, que trazem o modo de ser das pessoas nos dias atuais, usando uma crueza, por vezes demasiada, mas que sabemos verdadeiras. Do romance A possibilidade de uma ilha (Record, 2006), de Michel Houellebecq:


... entre um homem e uma mulher subsistia sempre, apesar de tudo, alguma coisa: uma pequena atração, uma pequena esperança, um pequeno sonho. Fundamentalmente destinada à controvérsia e à divergência, a palavra permanecia marcada por essa origem belicosa. A palavra destrói, separa, e, quando entre um homem e uma mulher não subsiste senão ela, considera-se corretamente que a relação está terminada. Quando, ao contrário, é acompanhada, suavizada e de certa forma santificada pelas carícias, a própria palavra pode assumir um sentido diferente, menos dramático e mais profundo, o de um contraponto intelectual autônomo, sem objetivo imediato, livre.


Ilustração: Summer Evening, de Edward Hopper (1882-1967).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

FERREIRA GULLAR: 80 ANOS

Gerana Damulakis

Uma homenagem...
porque sua poesia seguiu - e segue - lado a lado com o país desde o começo da segunda metade do século 20, porque sua poesia se fez surreal, se fez concreta, se fez neoconcreta, se fez crítica e continua sendo feita, porque seu "eu" lírico sente e versa a natureza, porque o poeta carrega também as cidades, não apenas a sua São Luís do Maranhão, mas o Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago do Chile, porque Gullar vive o homem brasileiro, o homem latino-americano, porque hoje Ferreira Gullar completa 80 anos.

CANTIGA PARA NÃO MORRER

-----------------Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


-----------in Dentro da noite veloz


Ilustração: Hélio Oiticica (1937-1980).

ACONTECE QUE EU SOU BAIANO


Marielson Carvalho lança hoje, 10 de setembro, o livro Acontece que eu sou baiano. Vamos reviver o grande Dorival Caymmi.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

UM POETA HEDIONDO EXTRAORDINÁRIO





Gerana Damulakis

Augusto dos Anjos (1884-1914) intitulou o seu livro de poemas Eu, publicado em 1912, talvez porque tivesse total consciência da singularidade de sua poesia.Talvez? Ele era tão consciente que, antecipando estranhamentos, escreveu “Noli me tangere”, quando pinta a si mesmo.

NOLI ME TANGERE
----------Augusto dos Anjos


A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por consequência, um ser monstruoso!
Em minha arca encefálica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados anômalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais funéreas...

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!


Ilustração: Salvador Dalí, Crianças Geopolíticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem.

sábado, 4 de setembro de 2010

FICCIONISTA E POETA



Gerana Damulakis

Ao contrário da maioria, conheci primeiramente a prosa de Marcus Vinícius Rodrigues e, por isto, se considero a admiração que tenho por seus contos, sua poesia ficou um tanto de lado. Mas, Marcus é ficcionista e poeta, é poeta e ficcionista. Retirado da revista cultural eletrônica Diversos Afins, de Fabrício Brandão & Leila Andrade:
segue um exemplo que comprova o talento de Marcus.

A CASA DE EROS
-------------Marcus Vinícius Rodrigues

Sei bem do amanhã a bater na porta,
sei bem do sol em nossa janela,
o adeus ofuscante nas frestas.

Sei bem que nada é meu
neste teu corpo que volta
ao dia das ruas lá fora.

E é só por saber tanto
que me arrumo casa arejada
para cada nosso furtivo encontro.

Faço-me quarto que nunca acaba,
faço-me noite morna e serena,
faço-me o tempo que não escapa.

E quando enfim te engolir a cidade,
com suas horas atropeladas,
ainda que abandonado, serei tua casa.

Foto: Marcus Vinícius Rodrigues entre as poetas Mônica Menezes e Ângela Vilma, na festa de lançamento de seus livros Estranhamentos e Poemas para Antonio, mostrando as capas das coletâneas de poemas das duas.
Marcus Vinícius Rodrigues é autor de Pequeno inventário das ausências (Prêmio Braskem/Fundação Casa de Jorge Amado, 2001), 3Vestidos e meu corpo nu (P55 Edições,2009), Eros resoluto (P55 Edições, 2010), além de ter participação em várias antologias.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BONS MARIDOS FAZEM MULHERES INFELIZES



Gerana Damulakis

Pode ser, ou seguramente é, a observação de uma simples leitora, mas sinto na poesia de D. H. Lawrence (1885-1930) a poesia de um grande romancista. E ele foi uma grande romancista. Sem deixar de citar O Amante de Lady Chatterley, o romance Mulheres Apaixonadas me apaixonou.
Dizer que sua poesia é a poesia de um romancista parece leviano, é apenas uma impressão, só que ela, a poesia, traz nas entrelinhas a possibilidade de uma grande história.


BONS MARIDOS FAZEM MULHERES INFELIZES
---------------D. H. Lawrence

Bons maridos fazem mulheres infelizes
e maus maridos também fazem;
mas a infelicidade de uma mulher de marido bom
é muito mais arrasadora
que a infelicidade de uma mulher de marido ruim.

Tradução de Jorge Wanderley

Ilustração: Suplício por alívio, de Edvard Munch.

domingo, 29 de agosto de 2010

ROSA POETA


Gerana Damulakis

Não só a vida é um negócio muito perigoso, desfrutar a poesia também é um negócio muito perigoso porque aguça a sensibilidade e, se ela envolve tanto a alma, igualmente aprofunda amor - uma delícia - e medo - consciência maior dos riscos.
Tirei da estante João Guimarães Rosa (1908-1967), o grande Rosa. E que beleza este "Pavor".

PAVOR
------João Guimarães Rosa

Em torno de mim
círculos concêntricos se fecham,
como as órbitas lentas de um corvo...
Tudo é torvo e pesado,
falta de ar e de amor...
Para mim já se apagou a última cor.
E a minha alma se enfurna
em poços velhos de hulheiras,
de onde foi tirado e queimado o carvão todo.
Como um cego
que dormisse na treva, amedrontado,
para sonhar que mais uma vez cegou...

in Magma (Nova Fronteira, 1997)

Ilustração: "Parábola dos Cegos", de Peter Bruegel.