
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
ODE A MATISSE

terça-feira, 24 de agosto de 2010
24 DE AGOSTO DE 1899: NASCEU JORGE LUIS BORGES
Silvia Zappia
Foi numa tarde de agosto de 1974 quando três amigos e eu tocamos, com total atrevimento, com a impunidade que só a adolescência nos dá, a campainha do quarto andar de um edifício do bairro portenho de Palermo.
Fazia dias que havíamos decidido, assim, sem mais nem menos, sem titubear: fazer uma reportagem com o mestre, entrevistar a Borges.
Quando Maria Kodama, então sua secretária, abriu a porta para nós, os quatro adolescentes que éramos (alunos do último ano do secundário), perdemos a segurança e também a voz. Foi Mario aquele que pode balbuciar um “Viemos entrevistar o senhor Borges”.
E foi assim, tão simplesmente, como entramos na sala do apartamento, antiga, pequena, descuidada. Lembro de uma grande biblioteca que ocupava três paredes e a janela que dava para uma varanda iluminada. Perto desta janela estava sentado Borges, como se estivesse nos esperando, com uma mão segurando uma bengala e com a outra acariciando um gato, branco e gordo, que dormia em seu colo.
Nos cumprimentamos, nos sentamos em duas poltronas velhas, Marcelo ligou o gravador e, sem que fizesse uma pergunta ele começou a falar. Apenas ele falou, sem deixar de acariciar o gato, sem nos permitir ao menos uma palavra. Durante essas quase duas horas perdi a noção do tempo e do espaço; apenas sentia a respiração de Mônica sentada ao meu lado e a voz, a voz do mestre Borges.
Quando decidiu que nosso tempo havia terminado, pediu que fossemos embora, sem nenhuma amabilidade. Simplesmente assim, tão simplesmente como havíamos chegado.
Descemos os quatro pisos em silêncio, com as pernas tremendo, e quase no mesmo estado tomamos o trem suburbano que nos devolveu à casa e ao mundo.
Quando escutamos a fita, pouco foi o que entendemos. A gravação era de má qualidade e as palavras de Borges soavam quase incompreensíveis; nessa época apenas conhecíamos linguística, Spinoza, e as verdades de Confúcio.
Essa fita gravada foi para as mãos de nossa professora de língua e literatura; dela, foi para outra professora e, como se pode supor, jamais voltou para nós.
Nenhum dos quatro amigos que estiveram com ele, com Borges, recordam com clareza o que ele disse, por ter havido mais emoção do que atenção; eu, particularmente, nunca esquecerei o timbre de sua voz enquanto falava de Tao, e seus olhos já sem luz.
Hoje sei que Borges não falava para nós. Falava para ele mesmo, ou para esse outro que o habitava, perdido em seu labirinto, em seus círculos eternos, nas bifurcações do tempo.
22 de agosto de 2010
Ilustração: foto, tirada por Celeste, filha de Silvia, do mural que foi pintado sobre azulejos, pelo artista gráfico Rep, na Plaza Borges, ciudad de Mar del Plata.
O texto de Silvia Zappia foi escolhido para que o Leitora pudesse homenagear Jorge Luis Borges no dia de seu aniversário, su cumpleaños, com um relato de uma lembrança, de um recuerdo, de quem que teve a oportunidade de conhecê-lo: viu sua pessoa, ouviu sua voz.
Obrigada, Silvia.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
DA SENSIBILIDADE
Gerana Damulakis
Álvaro de Campos e os domingos estão associados. Nada de extraordinário. O poeta remete muitos dos seus versos aos domingos ("Nenhum domingo.../ Nunca domingo..."). São seus gritos, no entanto, que tenho vontade de colocar aqui. Como eles estão em um longo texto, segue um trecho muito pequeno de "Ultimatum":
..........................................................................................................................................................................
------------------- ----------------------ATENÇÃO!
--------------------------------- Proclamo, em primeiro lugar,
----------------------------A Lei de Malthus da Sensibilidade
Os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmétrica.
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Álvaro de Campos
Ilustração: Golconde, de René Magritte (1898-1967).
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
MENESTREL DAS PARCAS E DAS FÚRIAS
Gerana DamulakisOs poemas colocados na categoria hedonística ou poemas eróticos, ou ainda, autobiográficos, carregam dramaticamente a culpa por uma homossexualidade que ele não aceitou, mas não resistiu e assumiu. Contudo, é à maneira de Eliot que Kaváfis recorreu às alusões históricas ou literárias, até com a intercalação de citações. Enfim, Konstantinos Kaváfis, um simbolista, absorveu o influxo de sua época.
Original, portanto, principalmente na sua exposição conceitual do prazer, quase uma provocação, desvinculando o desejo do amor. Escolhi, no entanto, o poema “Muros”, metáfora perfeita de certas ocasiões na vida, quando não há escapatória.
Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.
E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.
Tradução de José Paulo Paes
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O JARDIM DE VEREDAS QUE SE BIFURCAM

Daí o fascínio pela arte literária, daí o espanto ao encontrar exatamente alguma aflição até então considerada particular.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
UM ESCRITOR LASCIVO

Gerana Damulakis
Não costumo ler biografias, memórias, relatos de viagens. Abro exceção para o escritor Paul Theroux e, por isso, digo outra vez: tudo é estilo.
Depois de O Grande Bazar Ferroviário (Objetiva, 2004), Theroux transformou mais uma viagem em livro: O Safári da Estrela Negra (Objetiva, 2009). E já encomendei o próximo: Até o fim do mundo (Objetiva, 2010). Mas, há uma curiosidade neste safári que reproduzo, quase na totalidade, no trecho retirado de Theroux.
O jovem e lascivo Flaubert - tinha apenas 27 anos - foi a Esna em busca de uma renomada cortesã, Kuchuk Hanem, "Pequena Princesa", e de sua famosa "Dança da Abelha". Esna, naquele tempo, era a cidade mais depravada do Egito, lotada de prostitutas que, por lei, tinham sido recolhidas no Cairo e deportadas para lá. Flaubert encontrou Kuchuk Hanem, que dançou nua para ele, em meio a músicos vendados.
A Dança da Abelha foi descrita como "basicamente um número cômico, em que a dançarina, atacada por uma abelha, tem que tirar toda a roupa". Mas o termo "abelha" é uma clara alusão, pois significa "clitóris" em arábe. Flaubert dormiu com a dançarina e registrou minuciosamente, em suas anotações de viagem, as particularidades de cada cópula, a temperatura de cada parte do corpo da mulher, seu próprio desempenho ("Eu me sentia como um tigre") e até os percevejos da cama, que ele adorou ("Gosto de um toque de pungência em tudo"). Ele anatomizou sua experiência egípcia em todos os sentidos da palavra, tornando-se um guia informal e um exemplo para mim.
(...)Ao deixar o quarto de Kuchuk, depois do encontro sexual, ele escreve: "Como seria lisonjeiro para o amor-próprio se, no momento de ir embora, eu tivesse certeza de que deixei uma lembrança, que ela pensará mais em mim do que nos outros que estiveram ali, que eu irei permanecer no coração dela!"
Mas isso é apenas um lamento, ele sabia que logo seria esquecido, pois admite mais tarde que, mesmo "tecendo uma estética em torno dela", a cortesã - vá lá, prostituta - não poderia estar pensando nele. E conclui: "Viajar nos faz ficar modestos - percebemos o lugar minúsculo que ocupamos no mundo."
Paul Theroux in O Safári da Estrela Negra - Uma viagem através da África
Gustave Flaubert (Illustration: Corbis)
